Álcool: o vinho é um prazer, não um suplemento

“Um copo de vinho tinto por dia faz bem ao coração.” Durante 30 anos esta frase foi repetida por médicos, jornalistas e, claro, por quem gosta de vinho. O problema é que os estudos mais bem feitos dos últimos dez anos não a confirmam. Não mostram que um copo ao jantar seja uma tragédia, mas mostram uma coisa mais simples e mais incómoda: o álcool não protege. Neste artigo vamos ver de onde veio o mito, o que a ciência sabe hoje e o que isso quer dizer para quem bebe.

Este não é um artigo para fazer ninguém sentir culpa por um copo num jantar com amigos. É um artigo para decidir com a informação certa, e não com a que dá jeito ouvir.

1. De onde veio a ideia do “copo por dia”

Nos anos 90 popularizou-se o chamado “paradoxo francês”: os franceses comiam muita gordura saturada e, mesmo assim, tinham menos doença cardíaca do que se esperava. O vinho tinto, hábito diário em muitas famílias, ficou com o crédito. Seguiu-se uma vaga de estudos observacionais com o mesmo desenho: comparar quem bebe pouco com quem não bebe. E quase todos mostravam a mesma curva em J: quem bebia pouco morria um pouco menos do que quem não bebia.

O problema estava no grupo de comparação. Muitos dos “não bebedores” desses estudos eram pessoas que tinham deixado de beber, muitas vezes por doença, medicação ou problemas com o álcool. Comparar alguém saudável que bebe um copo com alguém que deixou de beber porque está doente faz o álcool parecer um protetor. Junta-se outro fator: quem bebe moderadamente tende a ter mais rendimento, mais vida social, mais exercício e melhor alimentação.

Quando os investigadores corrigiram estes enviesamentos, a vantagem desapareceu. Uma meta-análise de 87 estudos encontrou a curva em J clássica sem correções. Depois de ajustar para os ex-bebedores e para a qualidade dos estudos, quem bebia pouco (até cerca de 25 g de álcool por dia) já não tinha menos mortalidade do que quem nunca bebeu. Uma atualização de 2023, com 107 estudos e quase 5 milhões de pessoas, chegou à mesma conclusão: beber pouco não se associou a menor mortalidade, e o risco subiu a partir de doses mais baixas nas mulheres do que nos homens.

2. O que mostram os estudos genéticos

Há uma forma engenhosa de contornar o problema dos estudos observacionais: usar genes que fazem as pessoas beber mais ou menos. Como esses genes são distribuídos ao acaso à nascença, funcionam quase como um ensaio natural. Chama-se aleatorização mendeliana.

Na China, duas variantes genéticas frequentes mudam muito a forma como o corpo processa o álcool, e quem as tem bebe bastante menos. Num estudo com mais de 500 mil adultos seguidos cerca de dez anos, a análise clássica mostrou a curva em J habitual: homens que bebiam um a dois copos por dia tinham menos AVC e enfarte. Mas quando se olhou para o álcool previsto pelos genes, a curva em J desapareceu: o risco de AVC subia de forma contínua com o álcool, sem nenhuma dose protetora.

No Reino Unido, um estudo com mais de 370 mil pessoas fez o mesmo exercício. Quem bebia pouco tinha, em média, um estilo de vida mais saudável, e era isso que criava a aparente proteção. Pela via genética, qualquer quantidade de álcool se associou a mais risco cardiovascular. O aumento era mínimo com doses baixas e crescia de forma exponencial com doses mais altas.

O copo de vinho nunca protegeu o coração. Quem o bebia é que, em média, já vivia de forma mais saudável.

3. Então existe uma dose segura?

Depende do que se entende por “segura”. Se a pergunta é “há alguma dose que faça bem à saúde?”, a resposta mais honesta hoje é não. Se a pergunta é “há doses com um risco muito pequeno?”, a resposta é sim, e é aqui que muitos artigos exageram para um lado ou para o outro.

O estudo Global Burden of Disease de 2018, com dados de 195 países, concluiu que o nível de consumo que minimiza a perda de saúde é zero. Em 2022, a atualização do mesmo grupo afinou a conta por idade:

  • Dos 15 aos 39 anos, o nível de menor risco ficou entre zero e cerca de meia bebida-padrão por dia, conforme a região. Nesta idade pesam sobretudo os acidentes e as lesões.
  • A partir dos 40 anos, o nível de menor risco ficou entre pouco mais de 0,1 e cerca de 1,9 bebidas-padrão (de 10 g) por dia, conforme a região.

Isto não quer dizer que um copo por dia faça bem depois dos 40. Quer dizer que, num modelo matemático, um consumo muito baixo pesa pouco no total. E esse modelo ainda usa as curvas de estudos observacionais que vimos acima, com a proteção cardiovascular que os estudos genéticos não confirmam.

Duas referências úteis para pôr números na cabeça:

  • A Organização Mundial da Saúde afirmou em 2023 que, para o cancro, não se conhece nenhum limiar abaixo do qual o álcool deixe de ter efeito. Na Região Europeia, cerca de metade dos cancros atribuídos ao álcool surgem em pessoas que não bebem muito.
  • O Canadá reviu as suas recomendações em 2023: até duas bebidas-padrão por semana, o risco é baixo; de três a seis por semana, aumenta o risco de vários cancros, incluindo mama e cólon; a partir de sete, aumenta de forma marcada o risco de doença cardíaca e AVC. Cada bebida-padrão canadiana tem cerca de 13,5 g de álcool, ou seja, um copo de vinho normal.

Para ter uma ideia: um copo de vinho de 125 ml a 13% tem cerca de 13 g de álcool; uma cerveja de 33 cl a 5% também. Dois copos ao jantar são cerca de 26 g, mais do dobro da bebida-padrão de 10 g usada nestes estudos.

4. Cancro: o risco que pesa mais nas doses baixas

O álcool é cancerígeno comprovado (grupo 1 da Agência Internacional de Investigação do Cancro), tal como o tabaco. No corpo transforma-se em acetaldeído, que danifica o ADN. Está ligado a pelo menos sete tipos de cancro: boca, faringe, laringe, esófago, fígado, cólon e reto, e mama.

Em 2020, cerca de 741 mil novos casos de cancro no mundo, 4,1% do total, foram atribuídos ao álcool. A maior parte vem do consumo pesado ou de risco, mas o consumo moderado (menos de 20 g por dia) foi responsável por cerca de 103 mil casos, e beber até 10 g por dia por cerca de 41 mil.

No cancro da mama, a análise de referência juntou 53 estudos e quase 60 mil mulheres com a doença. O risco subiu cerca de 7% por cada 10 g de álcool por dia, de forma igual em fumadoras e não fumadoras. Este é um risco relativo: numa mulher com risco de base baixo, o aumento absoluto é pequeno. Mas soma-se a cada ano de consumo e é especialmente relevante a partir dos 40, quando o risco de base sobe.

Para o coração, o efeito de um copo é discutível. Para o cancro, não é: o risco começa no primeiro copo, mesmo que seja pequeno.

5. Cérebro e sono: o que muda mesmo com pouco

Num estudo do UK Biobank com mais de 36 mil adultos de meia-idade e mais velhos, o consumo de álcool associou-se a menos volume cerebral, de substância cinzenta e de substância branca. A associação já era visível em quem bebia em média uma a duas unidades por dia (no Reino Unido, uma unidade tem 8 g) e tornava-se mais forte à medida que o consumo aumentava.

Noutro estudo britânico, que acompanhou funcionários públicos durante 30 anos, quem bebia de forma moderada (14 a 21 unidades por semana) tinha cerca de três vezes mais probabilidade de atrofia do hipocampo, a zona do cérebro ligada à memória. Beber pouco (menos de 7 unidades por semana) não protegeu em relação a não beber. São estudos observacionais e não provam causa, mas apontam todos no mesmo sentido.

O sono é onde muitas pessoas sentem o efeito mais depressa. Num estudo com mais de 4 mil trabalhadores finlandeses, medido em casa, na vida real, o álcool piorou a recuperação do sistema nervoso nas primeiras horas de sono, e de forma proporcional à dose. Mesmo doses baixas reduziram em média cerca de 9 pontos percentuais o índice de recuperação. O álcool ajuda a adormecer, mas costuma deixar a segunda metade da noite mais leve e agitada. Se o sono é um problema, veja também as 19 dicas para dormir melhor e o artigo sobre a insónia.

6. E o resveratrol do vinho tinto?

O resveratrol é um polifenol da casca da uva que, em laboratório e em animais, mostrou efeitos interessantes. Foi a justificação científica preferida para o “vinho faz bem”. Há dois problemas.

O primeiro é que a quantidade no vinho é pequena e muito variável. Os efeitos vistos em laboratório usam doses que exigiriam beber quantidades de vinho absurdas. Na região de Chianti, em Itália, um estudo mediu os metabolitos do resveratrol na urina de quase 800 pessoas com mais de 65 anos durante nove anos. Quem tinha mais resveratrol não viveu mais, não tinha menos inflamação, nem menos doença cardiovascular ou cancro.

O segundo é que nem em cápsula o resveratrol mostrou grande coisa nas pessoas. Uma meta-análise de ensaios clínicos não encontrou efeito na proteína C reativa, no colesterol total e LDL, nos triglicéridos, na glicose nem na tensão arterial.

Se gosta de uvas, coma uvas. Têm o resveratrol e os outros polifenóis, sem o álcool. E se quer saber que alimentos têm evidência mais sólida na prevenção do cancro, veja os 20 alimentos com potencial anticancerígeno.

7. Álcool, calorias e peso

O álcool tem 7 kcal por grama, quase tanto como a gordura (9 kcal por grama). Um copo de vinho tem perto de 90 kcal só do álcool, e uma noite com quatro copos chega facilmente às 400 kcal, antes de contar com os petiscos que costumam vir com eles.

Há mais um pormenor. O corpo trata o álcool como uma prioridade a eliminar e, enquanto o faz, queima menos gordura. Num estudo clássico em câmara metabólica, com doses altas de álcool, a oxidação de gordura caiu cerca de um terço nas horas em que o álcool estava a ser metabolizado. O álcool também tira inibição à mesa, e é por isso que as noites com vinho raramente são noites de pratos leves.

Se a gordura visceral ou a resistência à insulina são uma preocupação, o álcool é um dos primeiros sítios onde vale a pena olhar.

8. A idade e o sexo mudam a conta

Com a idade, a mesma quantidade de álcool produz concentrações mais altas no sangue, porque há menos água corporal e menos músculo. É uma das razões pelas quais muitas pessoas sentem que “já não aguentam como aos 20”. Expliquei isto em detalhe no artigo sobre o álcool depois dos 40, que também trata do que muda nas mulheres.

Nas mulheres, o risco sobe a partir de doses mais baixas, como mostrou a meta-análise de 2023. Na menopausa juntam-se o cancro da mama, a perda de massa óssea e o sono mais frágil. Veja também o guia de alimentação na menopausa.

9. Então, devo deixar de beber?

A ciência não manda ninguém deixar de beber. Diz que o álcool não é um alimento saudável e que beber menos é quase sempre melhor do que beber mais. A decisão é sua, e é legítimo decidir que um copo de vinho num almoço de domingo vale o pequeno risco que traz.

O que não faz sentido é beber por razões de saúde. Quem não bebe não deve começar para proteger o coração. E quem bebe todos os dias “porque faz bem” está a pagar um preço por um benefício que não existe.

Há uma parte da velha ideia que se mantém de pé: a mesa, a família e os amigos. Uma meta-análise de 148 estudos mostrou que as pessoas com relações sociais mais fortes tinham cerca de 50% mais probabilidade de sobreviver durante o período estudado. O benefício está na companhia, não no copo. E a companhia continua lá com água com gás, um sumo ou um vinho sem álcool.

Na prática: como beber menos sem drama

  • Dias sem álcool durante a semana: comece por quatro ou cinco por semana.
  • Meça o copo: um copo de vinho são 125 ml, e num copo grande isso fica bem abaixo do meio.
  • Água entre copos e sempre com comida.
  • Nada de álcool para adormecer: ajuda a adormecer e estraga a segunda metade da noite.
  • Escolha a ocasião, não o hábito: beber porque é um jantar especial é diferente de beber porque são oito da noite.
  • Experimente um mês sem álcool e repare no sono, no peso e na energia.

Há situações em que a resposta é zero: gravidez ou tentativa de engravidar, doença do fígado, alguns medicamentos (incluindo calmantes e certos analgésicos), historial de dependência e, claro, conduzir. Se toma medicação ou tem alguma doença, fale com o seu médico sobre o álcool.

Conclusão: o vinho é um prazer, não um suplemento

O “copo por dia que faz bem” nasceu de estudos mal comparados e sobreviveu porque era uma boa notícia. Os estudos mais robustos mostram que o álcool não protege o coração, aumenta o risco de cancro desde doses baixas e mexe com o cérebro, o sono e o peso. Para quem bebe pouco, o risco é pequeno. Mas é um risco, não um benefício.

Beber menos nunca foi fundamentalismo. É só deixar de chamar saúde a um hábito.

Se gosta de pôr ideias feitas à prova, veja o webinar Os Mitos Alimentares. E se o seu objetivo é viver mais anos com saúde, a masterclass Longevidade e o artigo sobre as 10 prioridades da longevidade mostram onde está o retorno real.

Não precisa de mudar tudo de uma vez. O próximo copo que decidir não beber já é uma escolha a seu favor.

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Referências científicas

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