As análises chegam, e lá está ela, com um asterisco: ferritina 420. A primeira reação é quase sempre a mesma: “tenho ferro a mais”, seguida de cortar a carne, deixar o multivitamínico e pesquisar hemocromatose a meio da noite. Na maior parte das vezes, a ferritina alta não quer dizer ferro a mais. Quer dizer que alguma coisa no corpo está a pedir atenção, e quase sempre não é o bife.
Neste artigo explico o que a ferritina mede, as causas mais comuns de ferritina alta, a análise que quase ninguém pede e que separa o susto do problema, e o que fazer em cada caso.
O que é a ferritina
A ferritina é a proteína onde o corpo guarda o ferro, sobretudo no fígado. Uma pequena parte circula no sangue, e é essa que se mede nas análises. Quando está baixa, é o sinal mais fiável de que as reservas de ferro estão a acabar.
O problema é que a ferritina tem um segundo emprego: é uma proteína de fase aguda. Sobe com inflamação, infeções, lesão do fígado e outras agressões ao corpo, independentemente do ferro que existe. Por isso uma ferritina baixa diz muito, e uma ferritina alta, sozinha, diz pouco.
A partir de quanto é “alta”?
Os valores de referência variam de laboratório para laboratório. Nos consensos internacionais, fala-se de ferritina alta acima de 300 ng/mL nos homens e 200 ng/mL nas mulheres. Não é raro: entre 6% e 19% das pessoas aparentemente saudáveis têm valores acima do normal, conforme a população estudada.
Explico porque é que os valores de referência contam só metade da história no artigo sobre valores de referência nas análises.
As causas mais comuns (e nenhuma é o bife)
Num estudo francês sobre a ferritina alta na prática clínica, as quatro causas mais frequentes foram o álcool, a inflamação, a lesão de células (sobretudo do fígado) e a síndrome metabólica. Mais de 40% das pessoas tinham várias causas ao mesmo tempo. E nenhuma destas quatro está ligada a uma sobrecarga importante de ferro.
1. Fígado gordo e resistência à insulina
É hoje uma das causas mais frequentes, ao ponto de ter nome próprio: hiperferritinemia metabólica. Aparece em quem tem gordura abdominal, fígado gordo, diabetes tipo 2 ou sinais de resistência à insulina (triglicéridos altos, glicose no limite, tensão a subir). A saturação da transferrina, de que falo mais abaixo, costuma estar normal.
E não é um pormenor inofensivo. Num estudo com 628 pessoas com fígado gordo confirmado por biópsia, quem tinha ferritina claramente alta tinha doença do fígado mais avançada e mais fibrose. O consenso internacional de 2023 associa a hiperferritinemia metabólica a mais risco de diabetes tipo 2, doença do fígado e doença cardiovascular.
Ou seja, aqui a ferritina funciona como um alarme do metabolismo. Escrevi sobre isto no artigo sobre fígado gordo e no de resistência à insulina.
2. Álcool
O álcool faz subir a ferritina de várias formas: agride o fígado, aumenta a absorção de ferro e alimenta a inflamação. Não é preciso beber muito para se ver nas análises. Quando o álcool é a causa, a ferritina costuma descer depois de algumas semanas sem beber. Falo dos números em existe uma dose segura de álcool?
3. Inflamação e infeções
Uma gripe, uma infeção dentária, uma doença inflamatória intestinal ou uma artrite podem fazer subir a ferritina sem que haja mais ferro no corpo. Por isso faz sentido medir a PCR (proteína C reativa) ao mesmo tempo, e repetir a ferritina umas semanas depois de uma infeção passar.
4. Lesão do fígado e de outras células
Quando as células do fígado sofrem, libertam ferritina para o sangue. Hepatites, alguns medicamentos e o próprio fígado gordo inflamado entram aqui. As transaminases (ALT e AST) e a GGT ajudam a perceber se o fígado está envolvido.
E os suplementos?
Também acontece, sobretudo em quem toma ferro ou multivitamínicos com ferro durante meses sem controlo. É um bom motivo para não tomar ferro “por precaução” sem análises, como explico no artigo sobre suplementos alimentares.
Quando é mesmo ferro a mais: a hemocromatose
A hemocromatose é uma doença genética em que o intestino absorve ferro a mais, ano após ano. O ferro acumula-se no fígado, no pâncreas, no coração e nas articulações. Na maioria dos casos em pessoas de origem europeia, deve-se a ter duas cópias de uma variante do gene HFE, chamada C282Y.
É mais frequente no norte da Europa: cerca de 1 em cada 83 pessoas na Irlanda tem esta combinação, contra menos de 1 em 2500 no sul da Europa. Em Portugal é menos comum do que nos países do norte, mas existe.
Nos homens costuma manifestar-se mais cedo. Nas mulheres, a menstruação e as gravidezes “gastam” ferro e protegem durante anos, e o problema aparece muitas vezes depois da menopausa. No início não dá sintomas. Mais tarde pode dar cansaço, fraqueza, dores nas articulações (muitas vezes nos dedos das mãos), pele acinzentada, diabetes e problemas no fígado.
A ferritina diz quanto ferro está guardado ou quanta inflamação existe. A saturação da transferrina diz se o ferro está mesmo a mais. Sem as duas, é um palpite.
A análise que separa o susto do problema
A peça que falta quase sempre é a saturação da transferrina: a percentagem da proteína que transporta o ferro que está ocupada. Segundo a Associação Europeia para o Estudo do Fígado (EASL), há sobrecarga de ferro quando a saturação está acima de 45% nas mulheres (com ferritina acima de 200) ou acima de 50% nos homens (com ferritina acima de 300).
- Ferritina alta com saturação normal: o mais provável é uma causa metabólica, o álcool ou inflamação. Não é ferro a mais.
- Ferritina alta com saturação alta, repetida em jejum: aí vale a pena investigar a hemocromatose, com o teste genético do HFE.
Se tem a ferritina alta, estas são as análises que ajudam a ler o quadro completo:
- Ferro sérico, transferrina e saturação da transferrina, de preferência em jejum.
- PCR, para ver se há inflamação.
- ALT, AST e GGT, para o fígado.
- Glicose em jejum, insulina ou hemoglobina glicada (HbA1c) e triglicéridos, para o metabolismo.
- Hemograma completo.
Se o fígado estiver envolvido, o médico pode pedir uma ecografia abdominal.
E acima de 1000?
Uma ferritina acima de 1000 ng/mL merece sempre avaliação médica, de preferência por um especialista. Nas orientações da EASL, ferritina abaixo de 1000 com transaminases normais torna pouco provável uma lesão grave do fígado. Acima disso, é preciso olhar com mais atenção.
Na prática
- Não entre em pânico com um valor isolado. Repita a ferritina com a saturação da transferrina e a PCR, longe de uma infeção.
- Se a causa é metabólica, o tratamento é o metabolismo: perder gordura abdominal, treino de força e caminhar todos os dias, comida verdadeira com proteína a cada refeição, menos açúcar e ultraprocessados.
- Corte no álcool durante umas semanas e repita as análises. É o teste mais barato que existe.
- Não tome ferro nem multivitamínicos com ferro sem saber se precisa.
- Não precisa de cortar a carne por causa de uma ferritina alta metabólica. O problema raramente está no prato de carne; está na cintura, no copo e na inflamação.
- Se a saturação estiver alta, fale com o médico sobre o teste genético antes de mudar seja o que for.
Se for hemocromatose
O tratamento são as sangrias (flebotomias), feitas com regularidade até a ferritina descer para perto de 50, e depois em manutenção. A EASL é clara: a alimentação não substitui as sangrias. Ainda assim, recomenda evitar suplementos de ferro e de vitamina C, moderar o álcool e a carne vermelha (como recomendação fraca), e não comer marisco cru, por risco de infeção. O chá preto às refeições pode reduzir um pouco a absorção de ferro. Quem tem hemocromatose sem lesão de órgãos pode ser dador de sangue regular na fase de manutenção.
E dar sangue para baixar a ferritina “metabólica”?
Parece lógico, mas os estudos não ajudam muito. Num ensaio aleatorizado em pessoas com sobrecarga de ferro de origem metabólica, tirar ferro não melhorou a resistência à insulina a curto prazo. O consenso de 2023 reserva as sangrias, nestes casos, para situações específicas acompanhadas por um especialista. A base continua a ser o estilo de vida.
E a ferritina baixa?
É o problema oposto, e é bem mais comum do que se pensa, sobretudo em mulheres que menstruam. Atenção a uma armadilha: como a inflamação faz subir a ferritina, uma ferritina “normal” pode esconder falta de ferro. A Organização Mundial de Saúde sugere que, havendo inflamação, uma ferritina abaixo de 70 já pode indicar reservas baixas. Explico tudo no artigo sempre cansado: as causas que as análises normais deixam passar.
Quando falar com o médico
- Ferritina acima de 1000 ng/mL.
- Saturação da transferrina acima de 45% nas mulheres ou 50% nos homens, repetida.
- Ferritina alta com transaminases alteradas.
- Familiares diretos com hemocromatose.
- Cansaço persistente, dores nas articulações dos dedos, diabetes recente ou pele mais escura sem explicação.
Conclusão: a ferritina é o mensageiro, não o problema
Uma ferritina alta raramente quer dizer que há ferro a mais. Na grande maioria dos casos, está a avisar que o fígado está sobrecarregado, que o metabolismo está a escorregar para a resistência à insulina, que o álcool está a pesar ou que há inflamação. A análise que faz a diferença é a saturação da transferrina. E a resposta, quase sempre, não é cortar a carne: é tratar a causa.
A ferritina alta raramente fala de ferro. Quase sempre fala do fígado, da cintura ou do copo de vinho.
Se a sua ferritina alta vem acompanhada de gordura abdominal, glicose no limite ou fígado gordo, é exatamente esse o trabalho do acompanhamento em otimização metabólica: ler as análises em conjunto e corrigir a causa. E se quer aprender a usar a comida para tratar o metabolismo, há o webinar Fazer da Cozinha uma Farmácia.
Tem a ferritina alta e não sabe porquê?
Referências científicas
- Valenti L, Corradini E, Adams LA, et al. (2023). Consensus Statement on the definition and classification of metabolic hyperferritinaemia. Nature Reviews Endocrinology, 19, 299–310.
- European Association for the Study of the Liver. (2022). EASL Clinical Practice Guidelines on haemochromatosis. Journal of Hepatology, 77(2), 479–502.
- Lorcerie B, Audia S, Samson M, et al. (2017). Diagnosis of hyperferritinemia in routine clinical practice. La Presse Médicale, 46, e329–e338.
- Kowdley KV, Belt P, Wilson LA, et al. (2012). Serum ferritin is an independent predictor of histologic severity and advanced fibrosis in patients with nonalcoholic fatty liver disease. Hepatology, 55(1), 77–85.
- Koperdanova M, Cullis JO. (2015). Interpreting raised serum ferritin levels. BMJ, 351, h3692.
- Sandnes M, Ulvik RJ, Vorland M, Reikvam H. (2021). Hyperferritinemia: a clinical overview. Journal of Clinical Medicine, 10(9), 2008.
- World Health Organization. (2020). WHO guideline on use of ferritin concentrations to assess iron status in individuals and populations.
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