Torrada com doce e um café. Ou uma taça de cereais “fitness” com leite magro. Às 10h30 já está a pensar em comida, às 11h abre a gaveta das bolachas e ao almoço come o dobro do que queria. O problema raramente é a força de vontade. É o que está no prato às 8 da manhã.
Neste artigo explico porque é que alguns pequenos-almoços seguram a fome até ao almoço e outros não, quanta proteína faz diferença, e deixo sete ideias práticas, rápidas e com comida verdadeira. Antes disso, uma verdade que muita gente não espera ler num artigo sobre pequeno-almoço.
Primeiro: o pequeno-almoço não é obrigatório
A frase “é a refeição mais importante do dia” é repetida há décadas, mas não resiste aos ensaios. Uma meta-análise de 13 ensaios concluiu que tomar o pequeno-almoço não ajuda a perder peso: em média, quem o tomava comia mais cerca de 260 kcal por dia e pesava ligeiramente mais.
Se não tem fome de manhã e funciona bem até ao almoço, não precisa de se obrigar a comer. É, aliás, a lógica do jejum intermitente bem feito. O que este artigo resolve é o outro caso, o mais comum: quem toma o pequeno-almoço e tem fome uma ou duas horas depois.
A pergunta não é se deve tomar o pequeno-almoço. É se o pequeno-almoço que toma está a trabalhar a seu favor.
Porque é que uns pequenos-almoços saciam e outros não
A proteína faz a maior diferença
A proteína é o nutriente que mais sacia por caloria. Num estudo com 20 jovens com excesso de peso que costumavam saltar o pequeno-almoço, um pequeno-almoço com 35 g de proteína (ovos e carne) aumentou a saciedade e reduziu os petiscos doces e gordos ao fim do dia, comparado com um pequeno-almoço de cereais com as mesmas calorias. As imagens do cérebro mostraram também menos atividade nas zonas ligadas à vontade de comer, antes do jantar.
Noutro estudo, mulheres com excesso de peso que comeram um pequeno-almoço de ovos sentiram-se mais saciadas e com menos vontade de comer nas 24 horas seguintes do que com um pequeno-almoço de pão com as mesmas calorias.
A maioria dos pequenos-almoços portugueses tem 5 a 10 g de proteína. O alvo prático é chegar perto de 25 a 30 g. Para quem tem mais de 50 anos, a proteína por refeição conta ainda mais: com a idade, o músculo precisa de uma dose maior para responder. Explico isto no guia da proteína.
Comida verdadeira, não comida de caixa
Cereais de pequeno-almoço, barras, bolachas “integrais” e sumos são fáceis de comer depressa e em quantidade. Num ensaio em que as pessoas podiam comer à vontade, a alimentação com ultraprocessados levou a comer cerca de 500 kcal a mais por dia do que a alimentação com comida pouco processada, com os mesmos nutrientes disponíveis. A textura e a rapidez contam: o que se mastiga mais, sacia mais.
Algum volume e alguma fibra
Fruta inteira, legumes (sim, ao pequeno-almoço), frutos secos e pão de massa-mãe de boa qualidade dão volume e abrandam a refeição. Não substituem a proteína, mas completam-na. Escrevi sobre o que faz o cérebro parar de comer.
Quanta proteína tem o que costuma comer
Valores aproximados, para ter uma noção rápida:
- 2 ovos: cerca de 12 g
- Iogurte grego natural (170 g): cerca de 15 a 17 g
- Queijo fresco ou requeijão (100 g): cerca de 10 a 12 g
- 1 lata de sardinhas: cerca de 18 a 20 g
- 2 fatias de fiambre de peru ou frango: cerca de 6 a 8 g
- 1 dose de proteína whey: cerca de 20 a 25 g
- 1 fatia de pão: cerca de 3 a 4 g
- Taça de cereais com leite: cerca de 6 a 9 g
- Torrada com doce: cerca de 3 g
Repare na diferença: dois ovos e um iogurte grego dão mais proteína do que três pequenos-almoços de torrada com doce juntos.
Sete pequenos-almoços que seguram a fome
- Ovos mexidos com tosta de massa-mãe e tomate. 2 ou 3 ovos, uma tosta, tomate e um fio de azeite. Clássico, rápido e completo.
- Iogurte grego com frutos vermelhos e nozes. Iogurte natural sem açúcar, uma mão de frutos vermelhos e outra de nozes. Zero cozinha.
- Requeijão ou queijo fresco com tomate, orégãos e azeite, com uma fatia de pão. Para quem prefere salgado sem cozinhar.
- Tosta de sardinha. Uma lata de sardinhas em azeite sobre pão de massa-mãe, com cebola roxa e limão. Proteína, ómega-3 e cálcio. Falo das vantagens da sardinha em lata.
- Omelete de véspera. Faça uma omelete grande com legumes ao jantar e leve uma fatia no dia seguinte. Fria também é boa.
- Papas de aveia reforçadas. Aveia cozinhada em leite, com uma dose de whey ou um iogurte grego misturado no fim, canela e fruta. Para quem não dispensa algo quente e doce.
- Para os dias de pressa: dois ovos cozidos feitos de véspera, uma peça de fruta e um café. Cabe numa caixa e não precisa de frigorífico durante a manhã.
Se gosta de variar, há receitas no blog que funcionam bem de manhã: pão de frigideira, oopsies de ovo e queijo e abacate recheado.
Na prática
- Comece pela proteína e construa o resto à volta: ovos, iogurte grego, queijo fresco, sardinha.
- Aponte para 25 a 30 g de proteína nesta refeição.
- Junte algo para mastigar: fruta inteira, legumes, frutos secos ou pão de qualidade.
- Troque os sumos por fruta inteira e os cereais de caixa por aveia simples.
- Prepare na véspera: ovos cozidos, uma omelete grande, iogurte já servido com fruta.
- Se não tem fome de manhã, não coma por obrigação. Mas faça o almoço contar.
Os erros mais comuns
- Só café. Funciona para algumas pessoas, mas muitas acabam a compensar com fome ao fim da manhã ou, pior, à noite. Se é o seu caso, veja o artigo sobre a fome ao fim do dia.
- Pequeno-almoço “saudável” sem proteína: sumo verde, tosta integral com doce, fruta sozinha. É leve e sacia pouco.
- Barras e bolachas “proteicas”. Muitas têm pouca proteína e muito açúcar. Leia o rótulo, e em caso de dúvida escolha ovos.
- Medo dos ovos por causa do colesterol. Para a maioria das pessoas, o colesterol dos ovos pesa pouco no colesterol do sangue. Quem tem LDL ou ApoB altos deve medir a sua resposta e ajustar com o médico.
Conclusão: o dia decide-se muitas vezes às 8 da manhã
Um bom pequeno-almoço não é uma questão de regras nem de horários. É uma refeição que lhe dá energia, segura a fome até ao almoço e torna mais fácil o resto do dia. Na maioria das pessoas, a mudança que mais se nota é simples: trocar uma refeição de açúcar e farinha por uma refeição construída à volta da proteína. Experimente durante duas semanas e repare no que acontece às 11h, e ao fim do dia.
Não precisa de comer menos de manhã. Precisa de comer melhor, para não comer de mais à noite.
Se quer aprender a montar refeições assim para toda a semana, com comida simples e verdadeira, é esse o tema do webinar Fazer da Cozinha uma Farmácia. Se o objetivo é o peso, o webinar Emagrecer e Ganhar Saúde e o guia gratuito O peso subiu. E agora? são o próximo passo. E se quer um plano à medida da sua rotina, é aí que um acompanhamento faz diferença.
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Referências científicas
- Sievert K, Hussain SM, Page MJ, et al. (2019). Effect of breakfast on weight and energy intake: systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ, 364, l42.
- Leidy HJ, Ortinau LC, Douglas SM, Hoertel HA. (2013). Beneficial effects of a higher-protein breakfast on the appetitive, hormonal, and neural signals controlling energy intake regulation in overweight/obese, “breakfast-skipping,” late-adolescent girls. American Journal of Clinical Nutrition, 97(4), 677–688.
- Vander Wal JS, Marth JM, Khosla P, et al. (2005). Short-term effect of eggs on satiety in overweight and obese subjects. Journal of the American College of Nutrition, 24(6), 510–515.
- Hall KD, Ayuketah A, Brychta R, et al. (2019). Ultra-processed diets cause excess calorie intake and weight gain: an inpatient randomized controlled trial of ad libitum food intake. Cell Metabolism, 30(1), 67–77.
- Moore DR, Churchward-Venne TA, Witard O, et al. (2015). Protein ingestion to stimulate myofibrillar protein synthesis requires greater relative protein intakes in healthy older versus younger men. Journals of Gerontology: Series A, 70(1), 57–62.
- U.S. Department of Agriculture. FoodData Central (composição dos alimentos).
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