Tem 44 ou 46 anos. Ainda tem período, por isso “ainda não é a menopausa”. Mas acorda às 3 da manhã sem razão, anda mais ansiosa ou irritável do que era, os ciclos estão diferentes, esquece-se de palavras a meio das frases e a barriga cresceu sem ter mudado nada. As análises estão normais e ouve que “é do stress”. Muitas vezes não é só do stress. Tem nome: perimenopausa. E saber isto muda a forma como se trata.
Neste artigo explico o que é a perimenopausa, quando começa, que sintomas costuma trazer (incluindo os que quase ninguém liga à idade), porque é que as análises enganam tanto nesta fase e o que ajuda de facto.
O que é a perimenopausa
A menopausa é um momento: a última menstruação, que só se confirma quando passam 12 meses sem período. A perimenopausa é o caminho até lá, a fase em que os ovários começam a funcionar de forma irregular, e inclui também esse primeiro ano depois da última menstruação.
Num estudo que acompanhou mulheres de Massachusetts, a perimenopausa começou, em média, aos 47,5 anos e durou cerca de quatro anos. Mas a variação é grande: há quem entre nesta fase antes dos 45 e quem passe por ela quase sem dar por isso.
Os especialistas dividem-na em duas etapas, sobretudo pelos ciclos:
- Fase inicial: os ciclos continuam, mas mudam de duração. Uma diferença persistente de 7 dias ou mais entre ciclos seguidos é o sinal típico.
- Fase tardia: começam a aparecer intervalos de 60 dias ou mais sem menstruação. É nesta fase que os afrontamentos costumam ser mais frequentes. Costuma durar um a três anos.
Porque é que esta fase é tão confusa
A ideia mais comum é que, na perimenopausa, os estrogénios “vão descendo”. Não é bem assim. O que caracteriza esta fase é a montanha-russa: há ciclos em que o estradiol cai e ciclos em que fica até mais alto do que na juventude. Um estudo que mediu as hormonas dia a dia em mulheres perimenopáusicas encontrou precisamente isso: valores de estrogénios mais altos do que nas mulheres mais novas, com grandes oscilações.
É por isso que os sintomas vêm e vão, que um mês corre bem e o seguinte não, e que tantas mulheres se sentem “estranhas” sem conseguirem explicar porquê.
Porque é que as análises enganam
Se as hormonas mudam tanto de um ciclo para o outro, uma análise num dia qualquer mostra só uma fotografia desse dia. A FSH pode estar normal hoje e alta daqui a um mês. Por isso, as orientações britânicas do NICE dizem que, numa mulher saudável com mais de 45 anos, a perimenopausa se diagnostica pelos sintomas, sem análises hormonais: afrontamentos ou suores e alteração dos ciclos chegam. As análises ficam para casos específicos, como sintomas antes dos 45 anos.
Isto não quer dizer que as análises não sirvam para nada. Servem para outras coisas importantes nesta fase: ferro e ferritina, tiroide, glicose, perfil lipídico. Mas “a FSH está normal” não quer dizer “não é perimenopausa”. É mais um caso em que um valor dentro da referência não conta a história toda.
Os sintomas, incluindo os que ninguém liga à idade
Ciclos irregulares e hemorragias abundantes
É o sinal mais característico. Os ciclos encurtam ou alongam, e as menstruações podem ficar muito mais abundantes ou longas. Num estudo com mais de 1300 mulheres entre os 42 e os 52 anos, 91% tiveram pelo menos um episódio de menstruação com 10 ou mais dias ao longo de três anos, e cerca de 78% tiveram vários dias seguidos de hemorragia abundante. É comum, mas não é para ignorar: hemorragias abundantes repetidas esvaziam as reservas de ferro e deixam cansaço, falta de ar e queda de cabelo.
Afrontamentos e suores noturnos
Muitas mulheres associam-nos só à menopausa, mas começam muitas vezes na perimenopausa. E não passam depressa: no grande estudo americano SWAN, duraram em média 7,4 anos.
Sono
Acordar a meio da noite e não voltar a adormecer é das queixas mais frequentes. Os suores noturnos explicam parte, mas não tudo. E o sono mal dormido arrasta o resto: mais fome, menos paciência, menos vontade de treinar. Falo disto em dormir mal engorda?
Humor, ansiedade e irritabilidade
Este é o sintoma que mais vezes passa ao lado. No estudo SWAN, as mulheres tinham duas a quatro vezes mais probabilidade de ter um episódio de depressão na perimenopausa e no início da pós-menopausa do que antes, mesmo tendo em conta a história anterior de depressão e os acontecimentos de vida. Ansiedade nova, choro fácil ou uma irritabilidade que não se reconhece em si própria podem fazer parte da transição. Não é fraqueza, é biologia, e trata-se.
Memória e “névoa mental”
Esquecer palavras, perder o fio à meada, sentir a cabeça mais lenta. O SWAN mostrou que, na perimenopausa, a aprendizagem e a memória verbal deixam de melhorar com a prática como acontecia antes, e que esse efeito volta depois da menopausa. Ou seja, é real e, para a maioria das mulheres, temporário. Não é o início de uma demência.
O corpo muda mesmo antes da balança
No SWAN, a gordura começou a aumentar mais depressa e o músculo a diminuir durante a transição, até cerca de dois anos depois da última menstruação. O peso subiu de forma lenta e linear, como em qualquer pessoa da mesma idade. O que mudou foi a composição: mais gordura, sobretudo na barriga, e menos músculo. Explico isto no artigo sobre a gordura abdominal na menopausa.
Ossos
A perda de densidade óssea acelera no fim da perimenopausa e nos primeiros anos depois da última menstruação. Não se sente, mas é aqui que o treino de força e a alimentação fazem mais diferença.
E ainda: articulações, libido, pele
Dores nas articulações, menos vontade sexual, secura vaginal, pele mais seca e palpitações são também queixas frequentes nesta fase. Nenhuma, sozinha, faz o diagnóstico. Mas quando várias aparecem juntas depois dos 40, vale a pena pensar na perimenopausa.
Ter período não quer dizer que as hormonas estejam como estavam aos 30. A perimenopausa começa muito antes de a menstruação acabar.
Um aviso importante: ainda pode engravidar
Com ciclos irregulares, é fácil achar que já não há risco. Há. As orientações britânicas de contraceção indicam que se mantenha um método até um ano sem menstruação depois dos 50, ou dois anos antes dos 50. Fale com o seu médico sobre o método mais adequado para esta fase.
O que ajuda de facto
Treino de força, a prioridade número um
Se a transição tira músculo e osso, a resposta mais eficaz é dar-lhes uma razão para ficar. O treino de força protege o músculo, ajuda o osso, melhora a forma como o corpo lida com a glicose e, para muitas mulheres, melhora o sono e o humor. Duas a três sessões por semana chegam para começar. Explico porquê em a partir dos 45 anos, o treino de força não é opcional.
Proteína em todas as refeições
Com menos estrogénios, o músculo responde pior ao estímulo, e a proteína passa a contar mais. Ovos, peixe, carne, iogurte natural e queijo fresco são as fontes mais fáceis de usar e mais bem aproveitadas. Veja quanta proteína comer por dia.
Ferro, se as menstruações são abundantes
Peça ao médico para ver a ferritina e o hemograma. Carne vermelha, marisco e fígado são as fontes de ferro mais bem absorvidas. Se houver défice, a suplementação deve ser orientada.
Menos álcool
O álcool piora os afrontamentos, o sono e o humor, e nesta fase o mesmo copo pesa mais. Escrevi sobre isso em álcool depois dos 40.
Para os afrontamentos e o humor
As orientações do NICE de 2024 recomendam a terapia cognitivo-comportamental para os afrontamentos, os suores noturnos e o humor em baixo associados à menopausa. Não faz os afrontamentos desaparecer, mas reduz quanto incomodam e melhora o sono.
Terapêutica hormonal
É o tratamento mais eficaz para os afrontamentos e os suores noturnos, e pode ser iniciada ainda na perimenopausa. Não é para toda a gente, nem para emagrecer. É uma decisão a tomar com o médico, avaliando os sintomas, a história pessoal e familiar e os riscos de cada caso. O que não faz sentido é aguentar sintomas que afetam a vida por achar que “é assim”.
Na prática
- Registe os ciclos e os sintomas durante dois ou três meses. Duração dos ciclos, dias de hemorragia, sono, humor, afrontamentos. É a informação mais útil que pode levar ao médico.
- Treino de força duas a três vezes por semana.
- Proteína em cada refeição, a começar pelo pequeno-almoço.
- Sono como prioridade: quarto fresco, horários regulares, álcool e café longe da noite.
- Análises que fazem sentido: ferritina e hemograma, tiroide, glicose e hemoglobina glicada, perfil lipídico.
- Contraceção até o médico dizer que já não é precisa.
Quando falar com o médico
- Menstruações tão abundantes que obrigam a trocar de penso ou tampão a cada uma ou duas horas, com coágulos grandes, ou que duram muito mais do que o habitual.
- Sangramento entre menstruações ou depois de relações sexuais.
- Qualquer sangramento depois de 12 meses sem menstruação.
- Sintomas antes dos 45 anos, sobretudo antes dos 40.
- Tristeza, ansiedade ou irritabilidade que se mantêm durante semanas ou afetam o trabalho e as relações.
- Sintomas que estão a afetar a sua qualidade de vida, seja qual for.
Conclusão: não é “só da idade”, e não tem de aguentar
A perimenopausa é uma fase normal da vida, mas isso não quer dizer que os sintomas sejam para ignorar. Saber que existe ajuda a deixar de procurar a explicação no sítio errado e a agir no que conta: músculo, proteína, sono, álcool e, quando faz sentido, tratamento médico. As mulheres que chegam à menopausa mais fortes são, quase sempre, as que começaram a cuidar disto na perimenopausa.
A perimenopausa não é o princípio do fim. É o melhor momento para preparar os próximos 40 anos.
Para continuar, leia o artigo sobre alimentação na menopausa. Se o peso é a sua maior preocupação, o guia gratuito O peso subiu. E agora? e o webinar Emagrecer e Ganhar Saúde são bons pontos de partida. E se quer um plano para esta fase, à medida dos seus sintomas, das suas análises e da sua rotina, é aí que um acompanhamento faz diferença.
Quer atravessar esta fase com um plano?
Referências científicas
- Harlow SD, Gass M, Hall JE, et al. (2012). Executive summary of the Stages of Reproductive Aging Workshop + 10: addressing the unfinished agenda of staging reproductive aging. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 97(4), 1159–1168.
- McKinlay SM, Brambilla DJ, Posner JG. (1992). The normal menopause transition. Maturitas, 14(2), 103–115.
- Santoro N, Brown JR, Adel T, Skurnick JH. (1996). Characterization of reproductive hormonal dynamics in the perimenopause. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 81(4), 1495–1501.
- Davies M, Sarri G, Lumsden MA. (2017). Diagnosis of the menopause: NICE guidance and quality standards. Annals of Clinical Biochemistry, 54(5), 516–518.
- Paramsothy P, Harlow SD, Greendale GA, et al. (2014). Bleeding patterns during the menopausal transition in the multi-ethnic Study of Women’s Health Across the Nation (SWAN). BJOG, 121(12), 1564–1573.
- Avis NE, Crawford SL, Greendale G, et al. (2015). Duration of menopausal vasomotor symptoms over the menopause transition. JAMA Internal Medicine, 175(4), 531–539.
- Bromberger JT, Kravitz HM, Chang YF, et al. (2011). Major depression during and after the menopausal transition: Study of Women’s Health Across the Nation (SWAN). Psychological Medicine, 41(9), 1879–1888.
- Greendale GA, Huang MH, Wight RG, et al. (2009). Effects of the menopause transition and hormone use on cognitive performance in midlife women. Neurology, 72(21), 1850–1857.
- Greendale GA, Sternfeld B, Huang M, et al. (2019). Changes in body composition and weight during the menopause transition. JCI Insight, 4(5), e124865.
- Greendale GA, Sowers M, Han W, et al. (2012). Bone mineral density loss in relation to the final menstrual period in a multiethnic cohort. Journal of Bone and Mineral Research, 27(1), 111–118.
- Faculty of Sexual and Reproductive Healthcare. (2017, atualizada em 2023). Contraception for women aged over 40 years. FSRH Guideline.
- National Institute for Health and Care Excellence. (2024). Menopause: identification and management (NG23).
- The North American Menopause Society. (2022). The 2022 hormone therapy position statement. Menopause, 29(7), 767–794.
This Post Has 3 Comments
Pingback: Alimentação na menopausa: o que muda e o que comer
Pingback: A partir dos 45 anos, o treino de força não é opcional
Pingback: Fome emocional: porque acontece e como a controlar