Ortorexia: quando comer saudável vira obsessão

Mesa posta para uma refeição partilhada com salada, peixe grelhado, queijo e bolo

Começa com boas intenções: comer melhor, cortar o açúcar, ler rótulos. Depois a lista de alimentos “proibidos” cresce, cada refeição passa a ser um exame, e um jantar fora com amigos dá mais ansiedade do que prazer. Quando comer bem deixa de ser cuidado e passa a ser medo, tem um nome: ortorexia.

Não é um diagnóstico oficial, mas é uma realidade que vejo cada vez mais, sobretudo em pessoas informadas, motivadas e muito expostas às redes sociais. Neste artigo explico o que é, como se distingue de comer com cuidado, de onde vem tanta pressão para fazer “tudo certo” e o que ajuda a sair dela.

O que é a ortorexia

O termo foi criado em 1997 pelo médico Steven Bratman, a partir do grego orthos (correto) e orexis (apetite). Descreve uma obsessão com comer de forma “correta”, “pura” ou “saudável”, ao ponto de essa preocupação começar a fazer mal.

A diferença para outras perturbações alimentares está na motivação. Na anorexia, o foco costuma estar no peso e na forma do corpo. Na ortorexia, o foco está na qualidade da comida: o que é natural, o que é “tóxico”, o que é inflamatório, o que é limpo. A pessoa não quer comer menos. Quer comer perfeito.

A ortorexia ainda não consta dos manuais de diagnóstico. Em 2022, um grupo de 47 especialistas em perturbações alimentares, de 14 países, chegou a um primeiro consenso sobre a definição e os critérios. Em traços gerais, fala-se de ortorexia quando há:

  • Uma preocupação obsessiva com a “qualidade” da alimentação, com regras rígidas que vão aumentando.
  • Ansiedade, culpa ou sensação de “impureza” quando essas regras são quebradas.
  • Consequências reais: perda de peso ou carências nutricionais, por exemplo, ou prejuízo na vida social, no trabalho ou no bem-estar.

Comer com cuidado ou ortorexia?

A fronteira não está no que se come. Está na forma como se vive a comida. Duas pessoas podem comer exatamente o mesmo prato, e uma delas estar bem e a outra não.

Comer com cuidadoOrtorexia
Há preferências e prioridadesHá regras rígidas e listas de alimentos proibidos
Uma refeição fora do plano é só uma refeiçãoUma refeição fora do plano traz culpa, ansiedade ou “compensação”
Come com os outros sem problemaEvita jantares, viagens ou refeições em casa de outras pessoas
A alimentação é uma parte da vidaA alimentação ocupa grande parte do dia e dos pensamentos
Adapta-se quando não há a opção idealPrefere não comer a comer algo “impuro”
Sente-se mais livreSente-se mais preso

Sinais de alerta

Nenhum destes sinais, sozinho, faz um diagnóstico. Mas quando vários aparecem juntos e se mantêm, merecem atenção:

  • A lista de alimentos que “não pode” comer não para de crescer.
  • Passa muito tempo a planear, pesquisar ou preparar refeições, e isso pesa.
  • Sente-se moralmente superior quando cumpre e culpado quando falha.
  • Tem medo de alimentos concretos, não por alergia ou intolerância, mas pelo que “fazem” ao corpo.
  • Recusa convites ou leva sempre comida própria para não perder o controlo.
  • Perdeu peso sem querer, ou tem análises que mostram carências.
  • Pessoas próximas já comentaram que a comida “virou um tema”.

Comer bem é uma ferramenta para viver melhor. Quando a vida passa a girar à volta de comer bem, a ferramenta virou o problema.

De onde vem tanta pressão para fazer tudo certo

O marketing do “limpo”

“Clean eating”, “detox”, “sem tóxicos”, “superalimentos”: a indústria percebeu há muito que o medo vende. Se um alimento é apresentado como veneno e outro como salvação, a pessoa fica a sentir que cada escolha decide a sua saúde. Já escrevi sobre o que há de real nos superalimentos e porque a ideia de dieta perfeita pode ser biologicamente imperfeita.

As redes sociais

Num estudo com 680 pessoas que seguiam contas de alimentação saudável no Instagram, quem usava mais o Instagram tinha mais sintomas de ortorexia. Nenhuma outra rede social mostrou a mesma ligação de forma clara. O estudo não prova que o Instagram cause ortorexia (pode ser que pessoas já obcecadas procurem mais estas contas), mas o padrão faz sentido: um feed infinito de pratos perfeitos, corpos perfeitos e regras novas todas as semanas.

A informação contraditória

Num dia o ovo faz mal, no outro é um superalimento. O pão é veneno, depois é a massa-mãe que salva. Para quem quer fazer tudo certo, isto não gera conhecimento: gera medo e mais regras. Falo disso no artigo sobre confusão alimentar.

O perfil de quem é mais vulnerável

A ortorexia aparece com mais frequência em pessoas perfeccionistas, com tendência para a ansiedade ou para o controlo, e partilha traços com a anorexia e com a perturbação obsessivo-compulsiva. Muitas vezes, controlar a comida é uma forma de sentir controlo sobre outras coisas que estão fora de mão.

Quantas pessoas têm ortorexia?

Ninguém sabe ao certo. Uma revisão de 62 estudos encontrou números entre cerca de 3% e mais de 80%, consoante o questionário usado. O questionário mais antigo, o ORTO-15, classifica como “ortoréxicas” muitas pessoas que só comem com cuidado, e por isso inflaciona os resultados. É o caso do estudo do Instagram, que apontava para 49%: o número diz mais sobre o questionário do que sobre a realidade.

O que se pode dizer com segurança é que comportamentos ortoréxicos são comuns em quem segue de perto o mundo da saúde e do bem-estar, e que a forma grave, com consequências físicas e sociais, é menos frequente, mas existe.

Uma coisa que eu próprio tenho de admitir

Trabalho em nutrição e otimização metabólica. Falo de proteína, de análises, de comida verdadeira, de alimentos a evitar. Este discurso, mal recebido, pode alimentar exatamente o problema de que falo aqui.

Por isso quero deixar isto claro: as orientações que dou são um mapa, não uma religião. O objetivo de comer melhor é ter mais energia, mais saúde e mais liberdade, não menos. Se um plano alimentar o deixa ansioso, isolado ou com medo de comer, esse plano não está a funcionar, por muito “perfeito” que pareça no papel. A saúde metabólica constrói-se com o que se faz na maior parte do tempo, não com a perfeição em cada refeição.

O que ajuda

Na prática

  • Limpe o feed. Deixe de seguir contas que o fazem sentir culpa ou medo. Se ao fim de cinco minutos de scroll se sente pior com o que comeu, isso é informação.
  • Pense em acrescentar, não em cortar. Mais proteína, mais legumes, mais refeições à mesa com outras pessoas. Listas do que é proibido tendem a crescer. Listas do que é bom tendem a libertar.
  • Treine a flexibilidade. Coma, de propósito, numa situação que normalmente evitaria: um jantar fora, uma refeição feita por outra pessoa. Note a ansiedade e note que passa.
  • Volte a ouvir o corpo. Fome, saciedade, prazer. O mindful eating pode ajudar a sair do modo regra e voltar ao modo atenção.
  • Desconfie de certezas absolutas. Quem lhe diz que um alimento comum é veneno para toda a gente quase nunca está a falar de ciência.

Quando procurar ajuda

Se a preocupação com a comida já ocupa grande parte do dia, se evita a vida social por causa dela, se perdeu peso sem querer ou se sente que perdeu o controlo sobre as regras que criou, é altura de pedir ajuda. O primeiro passo é falar com o médico de família ou com um psicólogo. A abordagem com mais suporte, embora ainda com poucos estudos, combina terapia cognitivo-comportamental com informação nutricional clara e, em alguns casos, medicação.

Um acompanhamento nutricional pode fazer parte do processo, ajudando a reconstruir uma alimentação completa e flexível, mas não substitui o apoio psicológico quando a relação com a comida já está a afetar a vida.

Conclusão: o objetivo nunca foi a perfeição

Comer bem é dos melhores investimentos que pode fazer na sua saúde. Mas o objetivo nunca foi a perfeição. Foi viver melhor, com mais energia e mais liberdade. Quando a alimentação passa a ser fonte de medo, culpa e isolamento, vale a pena parar e perguntar: isto está a dar-me saúde, ou a tirar-ma?

Uma alimentação saudável é aquela que consegue manter com tranquilidade. Se precisa de medo para a cumprir, já não é saudável.

Se quer separar o que a ciência diz do que é marketing e moda, e deixar de viver com medo de cada alimento, é esse o tema do webinar Os Mitos Alimentares. E se quer construir uma alimentação que funcione para si sem regras impossíveis, é aí que um acompanhamento faz diferença.

Quer voltar a comer com tranquilidade?

Marcar acompanhamento Apresente-me o seu caso Tirar dúvidas

Referências científicas

  1. Dunn TM, Bratman S. (2016). On orthorexia nervosa: a review of the literature and proposed diagnostic criteria. Eating Behaviors, 21, 11–17.
  2. Donini LM, Barrada JR, Barthels F, et al. (2022). A consensus document on definition and diagnostic criteria for orthorexia nervosa. Eating and Weight Disorders, 27(8), 3695–3711.
  3. Koven NS, Abry AW. (2015). The clinical basis of orthorexia nervosa: emerging perspectives. Neuropsychiatric Disease and Treatment, 11, 385–394.
  4. Turner PG, Lefevre CE. (2017). Instagram use is linked to increased symptoms of orthorexia nervosa. Eating and Weight Disorders, 22(2), 277–284.
  5. Niedzielski A, Kaźmierczak-Wojtaś N. (2021). Prevalence of orthorexia nervosa and its diagnostic tools: a literature review. International Journal of Environmental Research and Public Health, 18(10), 5488.
  6. Carpita B, Nardi B, Bonelli C, et al. (2024). Prevalence of orthorexia nervosa in clinical and non-clinical populations: a systematic review. CNS Spectrums, 29(6), 549–569.

Deixe um comentário