Sempre cansado? As causas que as análises normais deixam passar

Tosta de pão de massa-mãe com ovo e queijo, chávena de café, copo de água e óculos sobre um caderno numa mesa de madeira

Dorme, mas acorda cansado. Chega a meio da tarde sem energia, o fim de semana não chega para recuperar e o café já não faz efeito. Fez análises, estão “todas normais”, e a conversa acaba em “deve ser do stress”. Às vezes é mesmo do stress. Mas muitas vezes há uma causa concreta que estava nas análises, ou que nunca foi procurada.

Neste artigo explico as causas mais comuns de cansaço que passam despercebidas, porque é que “normal” nem sempre quer dizer “ótimo”, que análises fazem sentido pedir e quando é altura de ir ao médico sem esperar.

O cansaço é comum, e isso não quer dizer que seja “normal”

Entre 14% e 27% das pessoas que vão ao médico de família queixam-se de cansaço. A boa notícia é que, na maioria, não há uma doença grave por trás: num estudo holandês, só cerca de 8% das pessoas com cansaço tiveram um diagnóstico de doença física ao fim de um ano.

Mas não ter uma doença grave não é o mesmo que não ter nada. Entre a doença e o bem-estar há uma zona cinzenta enorme, cheia de pequenas causas que se somam: reservas de ferro em baixo, sono de má qualidade, pouca comida, pouco músculo, demasiado stress. É nessa zona que se ganha ou perde energia no dia a dia.

As causas que mais passam ao lado

1. Ferro em baixo, mesmo sem anemia

É, provavelmente, a causa mais esquecida, sobretudo em mulheres que ainda menstruam. A hemoglobina pode estar normal e as reservas de ferro (a ferritina) estarem quase vazias. Muitos laboratórios só assinalam a ferritina como baixa abaixo de 10 a 15. Mas a Associação Americana de Gastrenterologia recomenda usar 45 como limite para diagnosticar falta de ferro em quem tem anemia, precisamente porque o limite mais baixo deixa passar muitos casos.

E isto não é só teoria. Num ensaio com 198 mulheres sem anemia, com ferritina abaixo de 50 e queixas de cansaço, 12 semanas de ferro reduziram o cansaço em 48%, contra 29% no grupo placebo. Uma ferritina de 20 está “dentro dos valores”, mas pode não estar onde precisa de estar.

O ferro mais bem absorvido está na carne vermelha, no marisco e no fígado. O dos vegetais é absorvido em muito menor quantidade. Mas não comece a tomar ferro por conta própria: em excesso faz mal, e uma ferritina baixa num homem ou numa mulher depois da menopausa tem de ser investigada.

2. Vitamina B12

A falta de B12 dá cansaço, falta de concentração, formigueiros e, nos casos mais avançados, anemia. Está mais em risco quem toma metformina ou protetores do estômago durante muito tempo, quem tem mais de 60 anos e quem não come alimentos de origem animal, a única fonte natural de B12.

Aqui também há uma zona cinzenta: valores no limite inferior podem esconder uma falta real. As orientações britânicas de hematologia dizem que, quando os sintomas e o resultado não batem certo, não se deve descartar só pelo número e pode fazer sentido pedir testes complementares, como o ácido metilmalónico.

3. A tiroide, e quando não é a tiroide

Uma tiroide lenta dá cansaço, frio, prisão de ventre e aumento de peso, e vale sempre a pena confirmar. Mas também é preciso honestidade aqui: nem todo o cansaço com uma TSH ligeiramente alta se resolve com medicação. Num ensaio com 737 pessoas mais velhas com hipotiroidismo subclínico (TSH alta, mas T4 normal), um ano de levotiroxina não melhorou o cansaço mais do que o placebo. Se a tiroide estiver bem estudada e tratada e o cansaço continuar, a causa está noutro sítio. Explico como ler estas análises em a tiroide explicada.

4. Sono: quantidade e qualidade

Dormir 7 horas não chega se o sono for interrompido. A apneia do sono, em que a respiração para várias vezes durante a noite, é muito subdiagnosticada, e o risco aumenta com o peso, com a idade e, nas mulheres, depois da menopausa. Sinais de alerta: ressonar alto, alguém notar pausas na respiração, acordar com dor de cabeça ou boca seca e adormecer facilmente durante o dia. Mais sobre o tema em dormir não é descansar e no artigo sobre insónia.

5. Comer pouco, ou comer mal

Dietas muito restritivas, saltar refeições, pequenos-almoços de café e pouco mais, pouca proteína. O corpo não tira energia do ar. É frequente ver pessoas cansadas que comem pouco a tentar emagrecer e acabam por perder músculo, energia e vontade de treinar. Um défice calórico moderado e com proteína suficiente não deve deixá-lo de rastos.

6. Pouco movimento e pouco músculo

Parece contraditório, mas quem se mexe pouco cansa-se mais. Uma meta-análise de dezenas de ensaios mostrou que o exercício regular aumenta a sensação de energia e reduz o cansaço. Não é preciso começar pelo mais difícil: caminhar e treinar força duas vezes por semana já muda muito. Explico porquê em porque é que o exercício dá energia, mesmo quando está cansado.

7. Stress, humor e ansiedade

O cansaço é um dos sintomas mais comuns da depressão e da ansiedade, muitas vezes antes da tristeza. Um cansaço que vem com falta de prazer nas coisas, sono alterado ou irritabilidade merece ser levado a sério, e trata-se. Falo da relação entre stress e corpo em cortisol e peso e em somatização.

8. Medicamentos e álcool

Alguns medicamentos para a tensão, anti-histamínicos, calmantes e antidepressivos podem dar cansaço. Não pare nenhum por conta própria, mas fale com o médico se o cansaço começou depois de uma mudança na medicação. E o álcool, mesmo em pouca quantidade, piora a qualidade do sono mais do que parece.

9. A perimenopausa

Nas mulheres a partir dos 40 e poucos anos, sono pior, menstruações abundantes (com perda de ferro) e alterações de humor podem juntar-se e explicar muito do cansaço. Explico isto no artigo sobre a perimenopausa.

“Tem as análises normais” quer dizer que não encontraram uma doença. Não quer dizer que o seu corpo esteja a funcionar no seu melhor.

Que análises fazem sentido

Não há um “painel do cansaço” mágico. Mas há um conjunto de análises simples que o médico costuma considerar quando o cansaço se prolonga, e que vale a pena ver em conjunto e não valor a valor:

  • Hemograma e ferritina, para a anemia e as reservas de ferro.
  • Vitamina B12 e ácido fólico, sobretudo nos grupos de risco.
  • TSH (e T4 livre se a TSH estiver alterada).
  • Glicose em jejum e hemoglobina glicada, porque a diabetes também cansa.
  • Função renal, função hepática e PCR, para excluir outras causas.
  • Doença celíaca, se houver queixas intestinais, falta de ferro sem explicação ou casos na família.

Mais importante do que a lista é a leitura. Uma ferritina de 18, uma B12 no limite e um sono de má qualidade, cada um sozinho, “não é nada”. Juntos, explicam muito. É isto que tento mostrar em valores de referência: o que significam e o que não significam.

Na prática

  • Durante duas semanas, registe a hora a que se deita e acorda, o que come, quando se sente mais em baixo e o que fez nesse dia. Os padrões aparecem depressa.
  • Proteína ao pequeno-almoço: ovos, iogurte natural, queijo fresco. Menos picos e quebras de energia a meio da manhã.
  • Carne vermelha ou marisco uma a duas vezes por semana, se não houver contraindicação, para o ferro e a B12.
  • Café até ao início da tarde e álcool longe da hora de deitar.
  • Mexa-se mesmo cansado: 10 a 20 minutos de caminhada costumam dar mais energia do que tirar.
  • Peça as análises certas e leia-as em conjunto, de preferência comparando com resultados anteriores.

Quando falar com o médico sem esperar

  • Cansaço com perda de peso sem explicação, febre, suores noturnos ou gânglios aumentados.
  • Sangue nas fezes, fezes negras ou menstruações muito abundantes.
  • Falta de ar ou palpitações com esforços pequenos.
  • Ressonar alto com pausas na respiração, ou adormecer a conduzir.
  • Tristeza persistente, perda de interesse pelas coisas ou pensamentos de que não vale a pena continuar.
  • Cansaço que dura mais de seis meses e piora muito depois de qualquer esforço, físico ou mental. Pode ser síndrome de fadiga crónica, que precisa de avaliação própria.

Conclusão: o cansaço é um sinal, não um traço de personalidade

Viver cansado não é “feitio”, nem uma inevitabilidade da idade ou da vida moderna. Na maioria das pessoas, o cansaço tem causas concretas, muitas vezes várias ao mesmo tempo, e quase todas melhoram quando são identificadas: reservas de ferro, B12, sono, comida suficiente, músculo e stress. O primeiro passo é deixar de aceitar o “está tudo normal” como ponto final da conversa.

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Referências científicas

  1. Vaucher P, Druais PL, Waldvogel S, Favrat B. (2012). Effect of iron supplementation on fatigue in nonanemic menstruating women with low ferritin: a randomized controlled trial. CMAJ, 184(11), 1247–1254.
  2. Wilson J, Morgan S, Magin PJ, van Driel ML. (2014). Fatigue: a rational approach to investigation. Australian Family Physician, 43(7), 457–461.
  3. Ko CW, Siddique SM, Patel A, et al. (2020). AGA clinical practice guidelines on the gastrointestinal evaluation of iron deficiency anemia. Gastroenterology, 159(3), 1085–1094.
  4. Devalia V, Hamilton MS, Molloy AM. (2014). Guidelines for the diagnosis and treatment of cobalamin and folate disorders. British Journal of Haematology, 166(4), 496–513.
  5. Stott DJ, Rodondi N, Kearney PM, et al. (2017). Thyroid hormone therapy for older adults with subclinical hypothyroidism. New England Journal of Medicine, 376(26), 2534–2544.
  6. Puetz TW, O’Connor PJ, Dishman RK. (2006). Effects of chronic exercise on feelings of energy and fatigue: a quantitative synthesis. Psychological Bulletin, 132(6), 866–876.
  7. National Institute for Health and Care Excellence. (2021). Myalgic encephalomyelitis (or encephalopathy)/chronic fatigue syndrome: diagnosis and management (NG206).

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