“Peixe de aquacultura? Isso é cheio de antibióticos.” É das frases que mais se ouvem ao balcão da peixaria. E é das que mais pessoas afasta do peixe, que é exatamente o contrário do que interessa à saúde.
A aquacultura não é perfeita. Mas também não é o monstro que circula nas redes. Na União Europeia, a produção está sujeita a regras apertadas, e alguns dos medos mais repetidos têm origem noutras geografias ou em dados com mais de 20 anos.
Neste artigo comparo o peixe de aquacultura com o selvagem sem romantismos: nutrientes, contaminantes, antibióticos, ambiente e o que vale a pena ver no rótulo.
1. Primeiro, o essencial: coma peixe
Antes de discutir a origem, convém lembrar porque é que o peixe interessa. Uma revisão publicada na JAMA concluiu que comer peixe uma a duas vezes por semana, sobretudo peixe gordo, se associa a menos 36% de mortes por doença coronária. O peixe traz proteína de alta qualidade, ómega-3, vitamina D, B12, iodo e selénio.
A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos considera que 1 a 2 porções de peixe por semana, e até 3 a 4 na gravidez, trazem benefícios para a saúde, tendo em conta também o mercúrio. Portugal é o país da União Europeia onde mais peixe se come por pessoa, mas há muita gente que fica abaixo disto.
O maior risco não é escolher o peixe errado. É deixar de comer peixe por medo.
2. Porque a aquacultura é inevitável
Segundo o relatório de 2024 da FAO, a aquacultura passou a produzir mais de metade dos animais aquáticos consumidos no mundo, cerca de 51%. Ao mesmo tempo, cerca de 38% das populações de peixe avaliadas estão sobreexploradas.
Não é possível alimentar 8 mil milhões de pessoas só com peixe selvagem sem esgotar os mares. A aquacultura não substitui a pesca, mas é um complemento necessário.
3. Nutrientes: há diferenças, e não vão todas no mesmo sentido
- Ómega-3: pelos valores do USDA, o salmão do Atlântico de aquacultura tem mais EPA e DHA por 100 g do que o selvagem, porque é mais gordo. Mas há um senão: num estudo com mais de 3 mil salmões escoceses, o EPA e o DHA caíram para cerca de metade entre 2006 e 2015, porque as rações passaram a ter mais óleos vegetais. Continua a ser uma boa fonte, só não é a melhor que já foi.
- Vitamina D: aqui o selvagem ganha. Num estudo norte-americano, o salmão de aquacultura tinha cerca de 25% da vitamina D do salmão selvagem.
- Proteína, B12, selénio: diferenças pequenas. Ambos são excelentes fontes.
Veja a tabela completa no artigo sobre o ómega-3.
4. Contaminantes: o que mudou nos últimos 20 anos
Em 2004, um estudo publicado na Science fez manchetes: o salmão de aquacultura tinha mais dioxinas e PCB do que o selvagem, sobretudo o europeu. Foi daqui que nasceu boa parte da má fama.
Mas as rações mudaram. Um programa de vigilância norueguês, com mais de 2300 amostras entre 1999 e 2011, mostrou que os níveis de mercúrio, arsénio, dioxinas e PCB do tipo dioxina no salmão de aquacultura norueguês diminuíram ao longo desse período. Os dados de 2004 já não descrevem o salmão que se compra hoje. Sobre este tema, leia também o salmão é tóxico?
No peixe selvagem, o problema principal é outro: o mercúrio acumula-se nos grandes predadores, como o espadarte, o tubarão e o atum de grande porte. Por isso, grávidas e crianças devem limitar estas espécies e preferir peixes mais pequenos, como a sardinha, a cavala ou o carapau.
E os microplásticos? Existem e estão a ser estudados. A EFSA concluiu em 2016 que os dados ainda não chegam para avaliar o risco para quem come peixe, e que a maior parte fica no tubo digestivo do peixe, que normalmente não se come.
5. Antibióticos: o medo que mais confunde
É verdade que em alguns países o uso de antibióticos na aquacultura foi, e nalguns casos ainda é, excessivo. Mas importar essa realidade para o peixe produzido na Europa é um erro.
- O Regulamento (UE) 2019/6 sobre medicamentos veterinários proíbe o uso de antibióticos de forma rotineira ou para compensar más condições de produção, e limita o uso preventivo a casos excecionais.
- Qualquer tratamento exige prescrição veterinária e um intervalo de segurança antes de o peixe ser vendido, para que os resíduos sejam eliminados.
- No salmão, a vacinação generalizou-se e reduziu muito a necessidade de antibióticos.
- Os resíduos de medicamentos veterinários são controlados oficialmente em toda a União Europeia, e os resultados são publicados todos os anos.
O mesmo raciocínio aplica-se ao velho mito das hormonas no frango: o uso de hormonas para fazer crescer animais está proibido na União Europeia desde os anos 80. Medos com décadas continuam a circular como se fossem notícia.
6. Marisco e bivalves: a joia esquecida
Mexilhões, amêijoas, ostras e berbigão criados em viveiro não precisam de ração. Alimentam-se do que filtram da água. Uma revisão de 148 avaliações ambientais de alimentos de origem animal concluiu que a cultura de moluscos e a pesca de pequenos peixes pelágicos, como a sardinha, estão entre os métodos de produção com menor impacto ambiental.
São também muito ricos em B12, ferro, zinco e selénio, e Portugal tem uma longa tradição de produção na Ria Formosa, no Sado e na Ria de Aveiro.
Um cuidado: os bivalves devem ser comprados com marca de salubridade, porque as zonas de produção são controladas e há períodos de interdição por biotoxinas. Bivalves apanhados por conta própria em zonas não autorizadas são um risco real.
7. Congelado e rótulo: o que ver ao comprar
O peixe congelado logo após a captura ou o abate mantém bem o valor nutricional e é muitas vezes mais prático e barato. Para quem quer comer mais peixe, é das soluções mais realistas.
E o rótulo ajuda muito. Na União Europeia, o peixe à venda tem de indicar:
- o nome da espécie;
- se foi capturado ou produzido em aquacultura;
- a zona de captura ou o país de produção;
- se foi descongelado.
Se quer comer peixe cru, em sushi ou ceviche, lembre-se de que tem de ser congelado antes, como expliquei em cru ou cozinhado.
Na prática: 7 regras para escolher peixe sem medo
- Coma peixe 2 vezes por semana, seja de aquacultura ou selvagem.
- Prefira peixes pequenos e gordos: sardinha, cavala, carapau, anchova.
- Varie o salmão com outras espécies, para ter mais ómega-3 e vitamina D.
- Limite os grandes predadores (espadarte, tubarão, atum de grande porte), sobretudo na gravidez e nas crianças.
- Leia o rótulo: espécie, origem, método de produção e se foi descongelado.
- Use o congelado sem complexos.
- Compre bivalves com marca de salubridade, nunca apanhados em zonas não autorizadas.
Conclusão: menos medo, mais informação
O peixe de aquacultura europeu é uma escolha segura e útil, com algumas diferenças face ao selvagem: mais ómega-3 em alguns casos, menos vitamina D noutros, e contaminantes que têm descido nas últimas décadas. O selvagem tem as suas vantagens, mas também os seus riscos, sobretudo nos grandes predadores. A pior escolha é não comer peixe nenhum.
O problema raramente está na origem do peixe. Está na quantidade de peixe que deixamos de comer por causa de medos que já não são atuais.
Se gosta de desmontar este tipo de medos com evidência, é exatamente o tema do webinar Os Mitos Alimentares. E para pôr o peixe a trabalhar a favor da sua saúde, o webinar Fazer da Cozinha uma Farmácia.
Se quer uma alimentação com mais peixe, adaptada aos seus gostos, ao orçamento e à sua fase de vida, posso ajudar.
Quer comer melhor sem medos desnecessários?
Referências científicas
- Mozaffarian D, Rimm EB (2006). Fish intake, contaminants, and human health: evaluating the risks and the benefits. JAMA, 296(15), 1885-1899. doi:10.1001/jama.296.15.1885
- EFSA NDA Panel (2014). Scientific opinion on health benefits of seafood (fish and shellfish) consumption in relation to health risks associated with exposure to methylmercury. EFSA Journal, 12(7), 3761. doi:10.2903/j.efsa.2014.3761
- EUMOFA, Observatório Europeu do Mercado dos Produtos da Pesca e da Aquicultura. The EU Fish Market (relatórios anuais). eumofa.eu
- FAO (2024). The State of World Fisheries and Aquaculture 2024. Roma: FAO. doi:10.4060/cd0683en
- Sprague M, Dick JR, Tocher DR (2016). Impact of sustainable feeds on omega-3 long-chain fatty acid levels in farmed Atlantic salmon, 2006-2015. Scientific Reports, 6, 21892. doi:10.1038/srep21892
- Lu Z, et al. (2007). An evaluation of the vitamin D3 content in fish: is the vitamin D content adequate to satisfy the dietary requirement for vitamin D? Journal of Steroid Biochemistry and Molecular Biology, 103(3-5), 642-644. doi:10.1016/j.jsbmb.2006.12.010
- Hites RA, et al. (2004). Global assessment of organic contaminants in farmed salmon. Science, 303(5655), 226-229. doi:10.1126/science.1091447
- Nøstbakken OJ, et al. (2015). Contaminant levels in Norwegian farmed Atlantic salmon (Salmo salar) in the 13-year period from 1999 to 2011. Environment International, 74, 274-280. doi:10.1016/j.envint.2014.10.008
- EFSA CONTAM Panel (2016). Presence of microplastics and nanoplastics in food, with particular focus on seafood. EFSA Journal, 14(6), 4501. doi:10.2903/j.efsa.2016.4501
- Regulamento (UE) 2019/6 do Parlamento Europeu e do Conselho, relativo aos medicamentos veterinários. eur-lex.europa.eu
- Hilborn R, et al. (2018). The environmental cost of animal source foods. Frontiers in Ecology and the Environment, 16(6), 329-335. doi:10.1002/fee.1822
- Regulamento (UE) n.º 1379/2013, que estabelece a organização comum dos mercados dos produtos da pesca e da aquicultura (artigo 35.º, informação ao consumidor). eur-lex.europa.eu
This Post Has 5 Comments
Boa tarde, Miguel
A questão que as pessoas me referem relativamente a tentatem optar pouco por peixes de aquacultura é mais a alimentação dos mesmos e não tanto os antibióticos. As farinhas maioritariamente compostas por transgénicos dos quais recebem pouca informação sobre as consequências do seu consumo… Acho que tantos anos depois ainda têm presente o ‘fantasma’ das vacas loucas.
Excelente artigo com base em referências científicas e apoiado em boas razões com vista à desmistificação de ideias erradas. Cada vez mais precisamos de informação válida para combater todo um sistema que veicula, recorrentemente, notícias e falsas e distorcidas. Grata por artigos como este.
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Boa noite Miguel. Muito obrigada por este post;) ajudou me a dismitificar os tais mitos.
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