Cinco lugares no mundo onde as pessoas chegam aos 100 anos como quem chega à reforma: Okinawa, Sardenha, Icária, Nicoya e Loma Linda. As “Blue Zones” deram livros, uma série na Netflix, dietas, receitas e até certificações para cidades. Mas e se parte da história estiver mal contada?
Nos últimos anos, demógrafos começaram a olhar com mais atenção para os registos de nascimento, para as dietas reais destas populações e para o que lhes aconteceu depois. O retrato que sai é mais interessante, e mais útil, do que a versão de marketing.
Neste artigo explico o que são as Blue Zones, o que está confirmado, o que é contestado, o mito da dieta “à base de plantas” e o que podemos mesmo aprender com estas populações.
1. O que são as Blue Zones
O termo nasceu em 2004, num estudo sobre a Sardenha. Os investigadores Michel Poulain e Gianni Pes identificaram uma zona montanhosa no centro da ilha com uma proporção invulgar de centenários, sobretudo homens, e marcaram-na no mapa a azul. Daí o nome.
Pouco depois, o jornalista Dan Buettner, com a National Geographic, popularizou a ideia e juntou-lhe outras regiões:
- Sardenha (Itália), nas montanhas de Ogliastra e Barbagia;
- Okinawa (Japão);
- Icária (Grécia);
- Península de Nicoya (Costa Rica);
- Loma Linda (Califórnia), entre os Adventistas do Sétimo Dia.
A partir daí, as Blue Zones tornaram-se uma marca, com livros, uma série documental, livros de receitas e programas para “transformar” cidades. E é aqui que convém separar a ciência da narrativa.
2. O que está confirmado
A Sardenha
É a Blue Zone com melhor base. As idades dos centenários foram validadas uma a uma com registos de batismo e documentos civis. E há uma particularidade rara: a proporção de homens entre os centenários é muito mais alta do que no resto do mundo.
Os próprios autores admitiram que o mecanismo é desconhecido. Uma das hipóteses é genética: comunidades isoladas nas montanhas, com muitos casamentos entre parentes e pouca imigração.
Os Adventistas de Loma Linda
Não são um lugar, são um grupo religioso. E é provavelmente o caso mais útil de todos. Num estudo com mais de 34 mil Adventistas da Califórnia, os homens viviam em média mais 7,3 anos e as mulheres mais 4,4 anos do que os outros californianos.
O mais interessante é a explicação: as diferenças entre Adventistas eram explicadas por escolhas concretas. Não fumar, fazer exercício, manter um peso saudável e a alimentação, em conjunto, podiam valer até 10 anos de diferença. É longevidade que vem de hábitos, não de um lugar mágico.
3. O que é contestado
Os registos de idade
Em 2024, o demógrafo Saul Newman, da University College London, ganhou um Ig Nobel (um prémio para investigação que “primeiro faz rir e depois faz pensar”) por um trabalho que põe em causa muitos recordes de longevidade. Analisou dados de todo o mundo e encontrou um padrão estranho: as idades extremas aparecem mais em regiões pobres, sem certidões de nascimento e com menor esperança de vida. Exatamente o contrário do que seria de esperar.
A explicação provável são erros de registo e fraude nas pensões: filhos que continuam a receber a reforma de pais já falecidos, registos refeitos, datas inventadas. O trabalho ainda é uma pré-publicação, sem revisão por pares, por isso deve ser lido com cautela. Mas há casos concretos que lhe dão força.
Em 2010, uma auditoria no Japão descobriu que mais de 230 mil pessoas registadas como centenárias estavam em paradeiro desconhecido, muitas já mortas há anos.
O caso de Okinawa
Okinawa é o exemplo mais citado e, hoje, o mais frágil. Muitos registos civis foram destruídos na Segunda Guerra Mundial e refeitos depois, o que torna as idades das gerações mais velhas difíceis de confirmar. O próprio investigador que criou o termo Blue Zone defendeu em 2024 que é preciso validar essas idades a fundo.
E há um dado que quase nunca aparece nos livros: a vantagem de Okinawa desapareceu. Nos dados de 2020, os homens de Okinawa estavam em 43.º lugar entre as 47 prefeituras do Japão em esperança de vida, e as mulheres em 16.º. As gerações nascidas depois dos anos 50 já morrem mais cedo do que a média japonesa. A explicação mais aceite é a ocidentalização rápida da alimentação e do estilo de vida durante e depois da ocupação americana: mais calorias, mais comida importada e processada, mais obesidade.
Ou seja, o que protegia os mais velhos de Okinawa não era genético nem mágico. Era o estilo de vida, e perdeu-se em duas gerações.
As Blue Zones não provam que existe um lugar onde se vive mais. Provam que o estilo de vida conta, e que se perde depressa.
4. O mito da dieta “à base de plantas”
A mensagem que mais se repete é que as Blue Zones comem “95% de plantas” e pouca carne. Mas olhando para cada população, o quadro é bem mais variado:
- Okinawa: a dieta tradicional, estudada nas pessoas nascidas antes da guerra, assentava sobretudo na batata-doce, com poucas calorias no total. Era em parte uma dieta de pobreza e escassez. E a carne de porco tinha um lugar importante na cozinha tradicional da ilha.
- Sardenha: os centenários eram, em grande parte, pastores. Comiam queijo e leite de ovelha e de cabra, pão, vinho e carne em dias de festa, além de muito movimento a subir e descer montanhas.
- Loma Linda: entre os Adventistas há vegetarianos e não vegetarianos. O que os distingue mais é não fumar, não beber álcool, mexer-se e manter um peso saudável.
O que estas populações tinham em comum não era a ausência de carne. Era comida pouco processada, calorias contidas, muito movimento no dia a dia e uma vida sem tabaco nem excessos. Os alimentos de origem animal estavam presentes, em quantidades moderadas e de boa qualidade.
5. O que é mesmo comum, e tem prova fora das Blue Zones
Se tirarmos o marketing, ficam alguns fatores que se repetem nestas populações e que, curiosamente, estão bem confirmados em grandes estudos noutras partes do mundo:
- Mover-se todos os dias. Não necessariamente no ginásio: caminhar, subir encostas, trabalhar a terra. Cumprir o mínimo de atividade física associa-se a cerca de menos 31% de mortalidade. Veja os 10 benefícios do exercício físico.
- Não fumar. É, de longe, o fator com mais peso nos Adventistas.
- Comer sem excesso. Okinawa tinha um ditado, “hara hachi bu”: parar quando se está 80% satisfeito.
- Relações sociais fortes. Numa meta-análise de 148 estudos com mais de 300 mil pessoas, quem tinha relações sociais mais fortes teve 50% mais probabilidade de sobreviver durante o período estudado, um efeito comparável ao de fatores de risco bem conhecidos, como o tabaco. Leia também sobre o impacto das relações na saúde.
- Ter um propósito. O “ikigai” de Okinawa ou o “plan de vida” de Nicoya. Num estudo com quase 7000 americanos com mais de 50 anos, quem tinha menos sentido de propósito teve mais do dobro do risco de morrer em 4 anos do que quem tinha mais.
E os genes? Contam menos do que se pensa. Uma análise de centenas de milhões de árvores genealógicas estimou que a hereditariedade da longevidade é inferior a 10%. Explico isto em genes ou escolhas: o que pesa mais na longevidade.
Na prática: a sua Blue Zone sem mudar de morada
- Mexa-se ao longo do dia, não só no treino: escadas, caminhadas, recados a pé. E junte 2 sessões de força por semana.
- Coma comida de verdade, pouco processada, com proteína de boa qualidade, legumes e fruta. Não precisa de cortar a carne. Precisa de cortar os ultraprocessados.
- Pare antes de estar cheio. Coma devagar e sirva porções mais pequenas.
- Cuide das relações: refeições em família, amigos com quem se encontra com regularidade, uma comunidade.
- Tenha um motivo para se levantar de manhã: um projeto, voluntariado, alguém que depende de si.
- Não fume. E trate o álcool como um risco, não como um hábito saudável.
Conclusão: o segredo não está no mapa
As Blue Zones são uma boa história, mas uma má receita. Parte dos recordes de idade pode ser erro de registo, Okinawa perdeu a vantagem em duas gerações, e a dieta “à base de plantas” é uma simplificação do que estas pessoas comiam de facto.
O que fica, e tem prova sólida, é menos exótico: mover-se todos os dias, comer sem excesso, não fumar, ter pessoas por perto e um propósito. Isto não depende do lugar onde vive. Depende do que faz com o seu dia.
Não precisa de se mudar para a Sardenha. Precisa de trazer a Sardenha para a sua rotina.
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Referências científicas
- Poulain M, Pes GM, et al. (2004). Identification of a geographic area characterized by extreme longevity in the Sardinia island: the AKEA study. Experimental Gerontology, 39(9), 1423-1429. doi:10.1016/j.exger.2004.06.016
- Fraser GE, Shavlik DJ (2001). Ten years of life: is it a matter of choice? Archives of Internal Medicine, 161(13), 1645-1652. doi:10.1001/archinte.161.13.1645
- Newman SJ (2019, atualizado em 2024). Supercentenarian and remarkable age records exhibit patterns indicative of clerical errors and pension fraud. bioRxiv (pré-publicação, sem revisão por pares). doi:10.1101/704080
- Poulain M, Herm A (2024). Exceptional longevity in Okinawa: demographic trends since 1975. Journal of Internal Medicine, 295(4), 387-399. doi:10.1111/joim.13764
- Willcox BJ, et al. (2007). Caloric restriction, the traditional Okinawan diet, and healthy aging. Annals of the New York Academy of Sciences, 1114, 434-455. doi:10.1196/annals.1396.037
- Holt-Lunstad J, Smith TB, Layton JB (2010). Social relationships and mortality risk: a meta-analytic review. PLOS Medicine, 7(7), e1000316. doi:10.1371/journal.pmed.1000316
- Alimujiang A, et al. (2019). Association between life purpose and mortality among US adults older than 50 years. JAMA Network Open, 2(5), e194270. doi:10.1001/jamanetworkopen.2019.4270
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- NPR (2010). Tracking down Japan’s missing centenarians. npr.org
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