Antinutrientes: o que são, riscos e como reduzir

Antinutrientes nos alimentos como fitatos, oxalatos e lectinas e o seu impacto na absorção de nutrientes

1. Introdução

Os antinutrientes são compostos naturais presentes sobretudo em alimentos de origem vegetal, como cereais, leguminosas e sementes, que podem interferir com a absorção de nutrientes essenciais no organismo.

Entre os mais conhecidos estão os fitatos, oxalatos e lectinas, frequentemente associados à redução da biodisponibilidade de minerais como ferro, cálcio, zinco e magnésio.

Apesar do nome sugerir algo negativo, a realidade é mais complexa. Muitos destes compostos também apresentam efeitos benéficos, incluindo propriedades antioxidantes e potencial proteção contra doenças crónicas. O seu impacto depende da quantidade ingerida, do contexto alimentar e da forma como os alimentos são preparados.

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Mas afinal, o que são exatamente os antinutrientes e porque existem nos alimentos?

São compostos produzidos pelas plantas como parte dos seus mecanismos naturais de defesa. Ao longo da evolução, incapazes de fugir ou atacar, as plantas desenvolveram estratégias químicas para reduzir a sua digestibilidade ou desencorajar o consumo por predadores.

Ao interferirem com a digestão ou absorção de nutrientes em quem os consome, estes compostos aumentam a probabilidade de sobrevivência e propagação das sementes.

Ainda assim, essa interação com o organismo humano não é necessariamente negativa. Em muitos casos, os mesmos compostos que reduzem a absorção de alguns nutrientes exercem também efeitos protetores relevantes. [artigo sobre como a inflação pode ser importante]

Importa ainda distinguir os antinutrientes de outras substâncias presentes nos alimentos, como proteínas alergénicas de origem animal ou vegetal. Estas podem desencadear reações imunitárias, como acontece com o amendoim, uma leguminosa frequentemente associada a reações alérgicas graves, mas não devem ser confundidas com o conceito de antinutriente.

2. Distinção entre Antinutrientes e Fatores Anti-nutricionais

Os antinutrientes e os fatores antinutricionais são frequentemente confundidos, mas referem-se a conceitos distintos no contexto da nutrição. Os antinutrientes são compostos químicos naturais presentes, principalmente, em alimentos de origem vegetal, como cereais, leguminosas e sementes. Estes compostos, como as lectinas, oxalatos e fitatos, interferem com a absorção ou utilização de nutrientes no organismo.

Por exemplo, os fitatos podem reduzir a biodisponibilidade de minerais como o zinco e o ferro ao formarem complexos insolúveis durante a digestão.

Por outro lado, os fatores antinutricionais abrangem uma categoria mais ampla e incluem substâncias que, mesmo sem serem produzidas naturalmente pelos alimentos, podem prejudicar a nutrição. Exemplos incluem inibidores enzimáticos em alimentos processados, toxinas acumuladas por contaminação ambiental, como metais pesados, ou resíduos de pesticidas.

Além disso, fatores antinutricionais podem ser introduzidos ou amplificados por práticas inadequadas de armazenamento ou processamento, como a formação de micotoxinas em grãos mal conservados.

A principal diferença reside, portanto, na origem e no contexto de ação: enquanto os antinutrientes são parte natural de certos alimentos, os fatores antinutricionais podem resultar de intervenções externas ou condições inadequadas. Ambas as categorias requerem atenção, mas podem ser mitigadas através de técnicas adequadas de preparo e escolhas alimentares informadas.

3. O que são Antinutrientes

Estes não são mais que uma forma de proteção, adquirida e desenvolvida ao longo de milhões de anos de evolução, para manter a sua integridade estrutural (contra as intempéries, ventos, chuvas, etc) mas principalmente para evitar que fossem consumidos e digeridos por outros seres vivos, pondo em risco a sua continuidade no planeta. 

Todas as espécies que não se adaptaram estão hoje extintas.

Assim, as plantas e grãos desenvolveram defesas que lhes permitem causar danos a quem os tentar consumir.

Outra estratégia foi arranjar forma de passar pelo trato digestivo dos animais e sair inteiras, ou prontas a germinar, junto com as fezes (e fertilizadas), diretamente para o solo. A maioria destas substâncias são toxinas sintetizadas pelas próprias plantas.

Apenas a maioria das aves possui sistemas digestivos adaptados para o consumo de grãos e sementes, sem estarem processadas. 

Nós, humanos, para os podermos comer, processamos e cozinhamos grãos e sementes, tais como as leguminosas e os cereais. 

No entanto, uma grande parte dos antinutrientes ainda permanece, podendo tornar as digestões mais lentas e difíceis, provocar gases,  e a absorção de alguns nutrientes pelo nosso organismo torna-se deficiente.

A disponibilidade biológica destes nutrientes está limitada pela presença de várias substâncias antimetabólicas ou antifisiológicas, conhecidas como antinutrientes que, em doses elevadas podem ter efeitos tóxicos para os humanos.

4. Antinutrientes: Principais Compostos e Impactos

Os antinutrientes são compostos naturais presentes em muitos alimentos, principalmente de origem vegetal, que interferem na absorção e utilização de nutrientes pelo organismo. Embora alguns possam causar efeitos negativos, muitos têm propriedades benéficas para a saúde, como antioxidantes e protetores contra doenças crónicas. Abaixo estão os principais antinutrientes e os seus impactos:

  1. Lectinas: Feijões, soja, trigo e arroz e podem danificar a mucosa intestinal e alterar a microbiota, mas são reduzidas significativamente ao cozinhar.
  2. Oxalatos (Ácido Oxálico): Espinafres, beterrabas, cacau. Interferem na absorção de cálcio e ferro, podendo formar pedras nos rins. Cozinhar os alimentos minimiza o risco.
  3. Fitatos (Ácido Fítico): Sementes, cereais integrais, leguminosas. Reduzem a biodisponibilidade de minerais como zinco e ferro, mas atuam como antioxidantes. Técnicas como demolhar e germinar são eficazes para reduzir os fitatos.
  4. Goitrogénico:  Couves, brócolos, rabanetes. Podem interferir na função da tiroide em pessoas com deficiência de iodo. Cozinhar os alimentos neutraliza a maior parte dos efeitos.
  5. Saponinas: Feijões, quinoa, alho. Alteram a permeabilidade intestinal, mas ajudam a reduzir o colesterol. Lavagens cuidadosas reduzem os níveis.
  6. Fitoestrógenos:  Soja, sementes de linhaça.Regulam hormonas e ajudam na menopausa, mas devem ser consumidos com moderação devido a possíveis efeitos endócrinos.
  7. Polifenóis (Taninos): Chá, café, vinho. Reduzem a absorção de ferro, mas são antioxidantes potentes. Consumir com vitamina C pode compensar este efeito.
  8. Alcaloides:Batatas verdes, tomates verdes, berinjelas. Podem causar problemas digestivos em altas concentrações. Evitar partes verdes e cozinhar ajuda a minimizar os riscos.
  9. Glicosídeos Cianogénicos (Ácido Cianídrico): Mandioca, sementes de maçãs, amêndoas amargas. Liberação de cianeto pode ser tóxica. O processamento adequado dos alimentos elimina a toxicidade.
  10. Inibidores de Amilase e Proteases: Feijões, grãos crus, leguminosas.Podem dificultar a digestão de amidos e proteínas, mas são neutralizados pelo cozimento.

5. E devo-me preocupar com os Antinutrientes ?

As leguminosas, cereais, sementes e oleaginosas são alimentos altamente nutritivos e podem ser a base de uma alimentação equilibrada e saudável.

Apesar de não conterem proteínas de alto valor biológico, que possuem todos os aminoácidos essenciais nas proporções ideais, quando combinados com outros alimentos, como cereais e leguminosas em conjunto, tornam-se fontes completas de proteínas. Além disso, destacam-se pelo elevado teor de vitaminas, minerais, fibras e compostos bioativos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

Para a grande maioria das pessoas saudáveis, a presença de antinutrientes nesses alimentos pode passar despercebida.

Embora seja comum a queixa de distúrbios digestivos, como gases, distensão abdominal e desconforto após o consumo de leguminosas e cereais, estes sintomas não estão necessariamente associados aos antinutrientes. Muitas vezes, são causados por hidratos de carbono fermentáveis, conhecidos como FODMAPs, que promovem a fermentação intestinal. [artigo sobre alimentos FODMAP´s]

No entanto, se esses sintomas forem frequentes, persistentes ou agravarem, é importante procurar ajuda médica para despistar outras condições, como intolerâncias alimentares, síndrome do intestino irritável ou doenças inflamatórias intestinais. [artigo sobre doenças inflamatórias intestinais]

Para pessoas saudáveis, os benefícios nutricionais desses alimentos superam amplamente os seus possíveis efeitos adversos, especialmente quando são corretamente preparados (e.g., demolhar e cozinhar).

Antes de se preocupar com antinutrientes, é crucial avaliar outros hábitos alimentares prejudiciais, como o consumo excessivo de farinhas refinadas, alimentos ultraprocessados, açúcares e gorduras hidrogenadas, que têm impactos significativamente mais negativos na saúde.

Além disso, reforçar o consumo de alimentos que sabemos que são benéficos para a saúde intestinal. [artigo sobre alimentos probióticos]

6. Como evitar ou reduzir os antinutrientes

Para reduzir o impacto dos antinutrientes e maximizar os benefícios nutricionais dos alimentos, é essencial adotar práticas simples e eficazes na preparação dos mesmos. Aqui estão as estratégias mais relevantes:

1. Demolhar: Deixar leguminosas, sementes e cereais de molho em água por 12 a 24 horas reduz significativamente compostos como fitatos, lectinas e saponinas. Esta prática ativa enzimas nas sementes, que ajudam a neutralizar os antinutrientes.

2. Germinar: A germinação (deixar as sementes e cereais a brotar) aumenta a biodisponibilidade de nutrientes, reduzindo níveis de fitatos e outros compostos que inibem a absorção de minerais. É especialmente útil para grãos integrais e leguminosas.

3. Cozinhar: O calor inativa grande parte dos antinutrientes, como lectinas e inibidores de tripsina, presentes em leguminosas. Por exemplo, feijões devem ser sempre cozidos antes do consumo para evitar toxicidade.

4. Fermentar: A fermentação natural, como no caso do pão de fermentação lenta ou produtos de soja fermentados (tempeh, miso), reduz fitatos e melhora a digestibilidade dos alimentos.

5. Descascar e remover partes verdes: Em alimentos como batatas e tomates, descascar ou evitar partes verdes elimina compostos tóxicos, como alcaloides.

6. Lavar bem os alimentos: Lavar alimentos como quinoa ajuda a remover saponinas, melhorando o sabor e a digestibilidade.

7. Combinações alimentares inteligentes: Consumir alimentos ricos em vitamina C (como citrinos, pimentos ou morangos) com fontes de ferro não-heme melhora significativamente a absorção do ferro, compensando o efeito inibidor de taninos e fitatos.

Adotar estas práticas não apenas minimiza os antinutrientes nos alimentos, como também maximiza o seu valor nutricional, permitindo que continuem a ser uma parte fundamental de uma dieta saudável e equilibrada.

7. Conclusão​

Os antinutrientes são compostos naturais que as plantas desenvolveram ao longo de milhões de anos como forma de proteção contra predadores e condições ambientais adversas.

Estes compostos ajudam a garantir a sobrevivência e propagação das plantas, mas podem interferir com a absorção e utilização de nutrientes no organismo humano.

Presentes em alimentos como cereais integrais, pseudocereais, leguminosas, sementes e oleaginosas, os antinutrientes podem reduzir a biodisponibilidade de minerais essenciais, como ferro, zinco e cálcio, e dificultar a digestão de proteínas.

Apesar disso, quando consumidos como parte de uma dieta equilibrada e preparados de forma adequada, o impacto negativo dos antinutrientes é significativamente minimizado, permitindo que os alimentos continuem a ser fontes ricas em nutrientes benéficos, como fibras, vitaminas e antioxidantes.

É essencial lembrar que os antinutrientes não devem ser motivo para eliminar alimentos vegetais da dieta, mas sim para adotar práticas que maximizem o seu valor nutricional.

Métodos simples, como demolhar, germinar, ferver e fermentar, reduzem consideravelmente a presença de antinutrientes e tornam esses alimentos mais digeríveis e nutritivos.

Se o objetivo é otimizar a sua alimentação, compreender a presença de antinutrientes nos alimentos e como preparar corretamente cada um deles é um passo importante. Com uma abordagem informada e equilibrada, é possível usufruir dos inúmeros benefícios dos alimentos vegetais, promovendo uma saúde robusta e uma nutrição completa.

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