1. Introdução
A gordura corporal sempre foi alvo de debate, preconceito e má compreensão. Para uns, é apenas uma questão estética. Para outros, um marcador de saúde. Mas a verdade é mais complexa: a gordura é um tecido ativo, com funções que vão muito além do armazenamento de energia. E dentro desta equação, há um tipo de gordura particularmente perigoso — a gordura visceral.
Neste artigo, vou explicar os diferentes tipos de gordura, como se formam, quais os impactos reais no organismo, as diferenças entre sexos e o que acontece à composição corporal feminina durante a menopausa. Tudo com base científica e aplicação prática.
2. Os Tipos de Gordura Corporal: Nem Toda a Gordura é Igual
Antes de se entrar em dietas ou planos de treino, é fundamental perceber que há vários tipos de gordura no corpo — e que cada uma tem comportamentos e funções distintas.
Gordura Subcutânea
É a gordura que conseguimos ver e beliscar. Fica localizada debaixo da pele e é aquela que mais nos incomoda esteticamente. Curiosamente, esta gordura é, em muitos casos, a menos perigosa do ponto de vista metabólico.
- Funções: isolante térmico, reserva energética e proteção mecânica.
- Pode ser mais difícil de perder, especialmente nas mulheres, devido à sua relação com os estrogénios.
- Não está tão associada a inflamação sistémica.
Gordura Visceral
A verdadeira vilã silenciosa. Esta gordura envolve os órgãos internos (fígado, pâncreas, intestinos) e está profundamente ligada a doenças crónicas.
- Atua como um órgão endócrino: produz hormonas inflamatórias.
- Causa resistência à insulina, fígado gordo e aumento do risco cardiovascular.
- É altamente sensível ao estilo de vida: stress, sono, alimentação e sedentarismo influenciam diretamente a sua acumulação.
Gordura Intramuscular
Presente dentro dos músculos, em pequenas quantidades, é benéfica como fonte energética. Contudo, quando está em excesso (ex. sarcopenia com obesidade), está associada a menor qualidade muscular e maior risco metabólico.
Gordura Marrom (castanha) e Bege
Nem toda a gordura serve para armazenar energia. Há dois tipos especiais — a gordura marrom e a gordura bege — que fazem exatamente o contrário: ajudam o corpo a queimar calorias para gerar calor.
Gordura marrom (castanha):
• Mais comum nos bebés, mas os adultos também têm pequenas reservas.
• Queima energia para produzir calor.
• Ativa-se com frio, exercício físico e alguns alimentos (como malagueta, chá verde ou açafrão).
Gordura bege:
• Forma-se a partir da gordura branca “normal”, quando o corpo recebe estímulos certos.
• Pode ser “ativada” por exposição ao frio, movimento diário, alimentação equilibrada e certos compostos naturais.
• Funciona como a gordura marrom, ajudando o corpo a gastar energia e a controlar melhor o metabolismo.
3. Como se Forma a Gordura Corporal?
A gordura não aparece do nada. O corpo armazena gordura porque acredita que está a fazer o mais sensato para garantir a sobrevivência — mesmo que se esteja num escritório e não numa savana a lutar pela sobrevivência. Fatores principais que levam à produção de gordura:
- Excesso calórico persistente: o fator mais óbvio. Comer mais do que se gasta leva ao armazenamento.
- Insulina cronicamente elevada: facilita o armazenamento de gordura, principalmente na zona abdominal.
- Stress crónico: ativa o eixo HPA (hipotálamo-pituitária-adrenais), aumenta o cortisol e redireciona a gordura para o abdómen.
- Má qualidade de sono: menos sono, mais grelina (fome), menos leptina (saciedade).
- Sedentarismo: reduz a capacidade de usar gordura como fonte energética.
- Disfunções hormonais: como hipotiroidismo, SOP, ou andropausa, aumentam a tendência para acumular gordura.
4. Homens vs. Mulheres: Composição Corporal e Hormonas
O sexo biológico é determinante na forma como o corpo acumula e perde gordura — e muito disso é controlado pelas hormonas sexuais. Existe uma distribuição diferente da gordura:
- Homens: tendem a acumular gordura visceral e abdominal (forma maçã).
- Mulheres: acumulam gordura subcutânea nas ancas e coxas (forma pêra) — uma proteção para a fertilidade.
Hormonas protetoras… até certa Idade. O estrogénio protege as mulheres contra o acúmulo de gordura visceral, até à menopausa. Já a testosterona nos homens promove menor gordura corporal e maior massa magra — mas essa proteção diminui com a idade.
Resposta Diferente ao Estímulo – Os homens têm resposta mais rápida à perda de gordura visceral com dieta e treino. Já as mulheres precisam de estímulos mais específicos (como treino de força e regulação hormonal) para resultados sustentáveis.
5. Gordura Visceral: O Verdadeiro Perigo Metabólico
A gordura visceral é metabolicamente ativa, mas não no bom sentido. É um epicentro de inflamação crónica e silenciosa. Porque é perigosa:
- Produz citocinas inflamatórias (IL-6, TNF-α).
- Leva à resistência à insulina → caminho direto para pré-diabetes e diabetes tipo 2.
- Promove disfunção endotelial → aumenta risco de hipertensão e AVC.
- Eleva ainda o risco de desenvolver fígado gordo, Alzheimer, cancros hormono-sensíveis e síndrome metabólica.
Nem sempre se vê ao espelho, mas pode ser medida:
- Perímetro abdominal: >94 cm nos homens e >80 cm nas mulheres = risco aumentado.
- Relação cintura/anca, ou exames como DEXA, TAC ou RMN são os mais fiáveis.
- Através de uma balança de bioimpedância
6. Menopausa e Gordura Visceral: A Tempestade Silenciosa
A menopausa não é apenas uma mudança hormonal — é uma revolução metabólica. Com a queda dos estrogénios, o corpo feminino perde a capacidade de proteger a distribuição periférica da gordura. Resultado?
- Aumento da gordura abdominal e visceral.
- Maior resistência à insulina e propensão para diabetes.
- Alterações no apetite, sono e metabolismo basal.
Mesmo sem ganhar peso, muitas mulheres notam alteração no formato do corpo — e esse novo padrão está associado a maior risco metabólico e cardiovascular.
Além disso, a perda de músculo e densidade óssea agrava o impacto negativo da gordura visceral na saúde global.
7. Como Reduzir a Gordura Visceral: Estratégias Baseadas em Evidência
Não é com abdominais. É com estratégia, consistência e foco no metabolismo.
Nutrição:
- Priorizar proteína magra, vegetais fibrosos, gorduras saudáveis.
- Reduzir farinhas refinadas, açúcares simples, álcool.
- Evitar “snacks saudáveis” que são, na verdade, bombas de insulina.
Exercício:
- Treino de força: essencial para preservar massa magra e regular a glicemia.
- Treino intervalado (HIIT): eficaz para reduzir gordura visceral.
- Movimento frequente ao longo do dia (NEAT): andar, subir escadas, agachar, levantar.
Sono e Stress:
- Dormir <6h/dia aumenta a gordura visceral, mesmo com dieta e exercício.
- Técnicas de relaxamento, meditação e exposição à luz natural ajudam a regular o eixo HPA.
Suplementação (quando indicada):
- Vitamina D: frequentemente baixa em pessoas com gordura visceral.
- Magnésio: regula o stress e a sensibilidade à insulina.
- Ômega-3: potente anti-inflamatório.
- Berberina, EGCG, probióticos: apoio adicional quando há disfunções metabólicas.
8. Conclusão
Enquanto nos preocupamos com o espelho, há uma gordura invisível que pode estar a silenciar os seus sinais de alerta — até ser tarde demais.
A gordura visceral é o marcador mais fiável de risco metabólico. A boa notícia? É também a que responde mais rapidamente à mudança de estilo de vida, mesmo sem grande perda de peso total.
O foco não deve ser apenas “perder peso”, mas sim perder o peso errado, ganhar massa magra e promover um ambiente metabólico saudável.
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Muito agradecida por toda a informação. Situo me nessa situação.
Muito agradecida por toda a informação. Situo me nessa situação.
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